A IDEIA LIVRE

domingo, 13 de agosto de 2017

Fragmentos…

Arrumando e destruindo papelada acumulada sem mais préstimo, dei há tempos com uma pequena pasta onde estavam guardados já há anos apontamentos, recortes de jornais e notas soltas, a propósito de isto ou de aquilo. Deu-me a curiosidade de voltar a percorrer com o olhar esses escritos e tentar perceber se me poderiam ainda suscitar o interesse de alguma reflexão ou aprofundamento. Assim, aqui ficam, para que eventualmente ainda possam servir para alguém.

- O socialista espanhol Javier Solana, que foi secretário-geral da NATO e o primeiro “ministro dos negócios estrangeiros” da União Europeia, no auge da primeira crise financeira da Grécia em que os países vizinhos a ajudaram financeiramente sob condições (drásticas, embora ineficazes), escreveu muito adequadamente (ver Público, 21.Mar.2012) que a questão da soberania nacional (neste caso, segundo alguns, violentada pelas referidas condições) se assemelhava à da liberdade individual, referindo o marco histórico do Tratado de Vestefália de 1648, que geralmente articulamos com o primeiro daqueles conceitos, e uma obra clássica do liberal John Stuart Mill para o segundo. Segundo Solana, estes dois conceitos apenas definem princípios, mas não modos estruturados de actuação dos agentes políticos ou sociais. Fixando-se sobre o caso dos Estados-nação, enfatiza que, se nunca a soberania foi total (por ameaças ou necessidades só satisfeitas pelo exterior), ela hoje está muitíssimo diminuída pela «globalização [que] tornou as fronteiras mais porosas» e a «interdependência [que] é ainda mais evidente no desempenho económico dos países», dando o exemplo concreto de que nesse ano o crescimento do PIB da China descera dois pontos percentuais devido ao abrandamento da economia nos Estados Unidos e na União Europeia. Tudo isto para afirmar que, no presente cenário mundial, os governos nacionais têm o dever de considerar os interesses globais (interdependentes uns dos outros) na definição das suas próprias políticas, e de o explicar devidamente aos seus concidadãos-eleitores – em vez de se desculparem com as malandrices alheias, gostaríamos nós de acrescentar.

- A França tem a sua cultura política particular onde se inclui, de tempos a tempos, o rebentamento de crises que trazem muitos milhares de pessoas para a rua em protestos, reivindicações ou afirmações de vontade colectiva. Em tais ocasiões, a liberdade de expressão assume formas e dimensões inusitadas, os movimentos inorgânico/“espontaneístas” sobrepõem-se às organizações formais (partidos, sindicatos, igrejas, etc.) e geralmente emerge um actor social desempenhando um papel central de mobilização das massas: camponeses, operários, estudantes, jovens, etc. Porém, o “populismo de direita” que impulsiona o voto na Frente Nacional, além de ser interclassista, parece definir mais o seu “nacionalismo” contra alguns sujeitos bem especificados: as populações islamizadas onde situam a ameaça terrorista; as instituições decisórias e regulamentares da União Europeia; e a “classe política” que tem governado o país nas últimas décadas, a quem atribui a culpa de não ter sabido manter o estatuto de grande potência a que os franceses se sentiam naturalmente com direito.

- Anotações escritas num saco higiénico em viagem aérea para Lille cerca de 2004:
Écueils à éviter ou à circonscrire, s’ils doivent quand même se présenter: - les guerres militaires ouvertes; - les dérives violentes du terrorisme, la répression à large échelle, l’auto-défense armée de chacun, la loi des gangs ou des milices, les dictatures ou les états policiers; - les exodes massifs ou les courants d’immigration fuyant leur pays ou région d’origine et la pauvreté, sauf cas de massacres ou génocide; - les inégalitées économiques trop marquées, combattues par voie de fiscalité, sur le revenu et sur la consommation, et par des prelèvements ou transferts obligatoires des plus riches aux plus necessités; - les excès de consommation et des facteurs qui provoquent des méfaits sur l’environnement et la santé des gens, par l’éducation, la taxation et l’interdiction. 

- Creio que escrevi um dia, sobre mim-próprio, que podia legitimamente ser visto como um “traidor em potência de cada uma das minhas pátrias”. De facto, olhando para a trajectória passada, o facto de me ter entregado “a fundo” a várias das minhas “pertenças” (ideológicas, afectivas, profissionais, etc.) ter-me-á obrigado a posteriores actos de “renegação” (pagando por isso um preço elevado, moral e socialmente), cada vez que a minha evolução posterior (melhor dizendo: a minha relação com o mundo) me levou com igual empenhamento a criticar (talvez radicalmente, ou em excesso) coisas que antes afirmara.
Destes comportamentos, retirei talvez o proveito de granjear o respeito e a credibilidade junto de alguns. Mas, simultaneamente, um tal ascendente foi também capaz de influenciar outros, que passaram a seguir-me (como modelo), sem que eu o procurasse ou desejasse, e que vêm depois a sentir-se perplexos, desorientados, quiçá atraiçoados, por causa da minha própria evolução. E eu mais angustiado, por esse facto.
De onde me virá afinal esta capacidade de influência sobre terceiros, suave e meramente pelo exemplo? Eu que detesto ser líder formal – já fui, sei que sou capaz, mas não gostei e recusei –, de arrastar gente atrás de mim (embora saiba ser cooperador e gostar de trabalhar em boas equipas) e sou incapaz de seduzir, mulheres ou auditórios?! Que, quando distribuía panfletos na rua, nunca os “impingia” aos passantes, apenas os exibindo e oferecendo a quem me estendia a mão?!
Francamente, não sei, e desconfio que não tenha muito a ver com a genética. Inclino-me mais para a educação original (família, meio militar, religião), e para uma “cultura da responsabilidade e do épico” que fui aprendendo com meu pai e meu avô, e porventura indo além das suas mensagens explícitas por excesso de imaginação infantil. Talvez tenha aí adquirido a ideia (nunca formulada) de que cada missão é uma batalha (onde se pode ganhar mas alguns morrem pela certa), cada decisão difícil uma prova sacrificial, um “cerco de Diu” como o que obrigou o Castro a empenhar as próprias barbas!

-Sobre a competição desportiva e a ética, julgo ser capaz de alinhavar três tipos de considerações. Primeiro, sobre a sua essência como fenómeno dos tempos modernos: nesta perspectiva, podemos ver a competição como estando no cerne do seu sucesso mundializado: mas, diferentemente do comércio (onde, em teoria, todos deviam ganhar na troca), é talvez melhor considerá-la como um sucedâneo ou sublimação da guerra, onde o objectivo é sempre a vitória (com a derrota dos adversários); mas é preciso juntar-lhe também outras características como sejam o comum benefício da actividade física, o aspecto lúdico, o espectáculo por vezes emocionante (pela incerteza do resultado) e a motivação para a superação individual do atleta. Neste sentido, é bastante limitada a comparação que muitos fazem com outras actividades de lazer antigas ou tradicionais (como as que envolvem confrontos com ou entre animais, os duelos e, no limite, as lutas de gladiadores romanos).
Em segundo lugar, podemos considerar os riscos e os aspectos negativos presentes em tais actividades: a tentação da fraude ou da deslealdade (os subornos ou corrupção desportiva, a violação das regras, etc.); a exaltação do sobre-humano (com os excessos prejudiciais à saúde física ou mental, a dopagem, etc.); a violência física e o risco inerentes a certas modalidades (como o boxe, o alpinismo, as corridas motorizadas, etc.); a exacerbação das rivalidades e do fanatismo clubístico, nacional ou pessoal; e ainda os grandes interesses financeiros hoje presentes em tudo o que são espectáculos desportivos de massas.
No terceiro plano de considerações podemos referir a lógica da regulamentação que organiza as competições, desde logo entre provas individuais e provas por equipas, bem como as diversas especialidades que têm sido criadas dentro de cada desporto para atender a diferenciações naturais entre os competidores (sexo, idade, compleição física, etc.) ou devidas a equipamentos diferentes (em potência ou performances), ou ainda para pôr à prova capacidades específicas e diferenciadas detidas pelos competidores (somando largas centenas as provas diferentes hoje praticadas nos quatro cantos do planeta). Mas o ponto que aqui mais nos interessaria relevar é, como dizíamos acima, o das lógicas de organização das competições, onde podemos destacar as seis mais significativas, a saber: a da corrida simultânea onde todos os competidores se confrontam directamente (a maratona ou uma volta ao mundo à vela sem escala, por exemplo), cujos resultados se apresentam sob a forma inequívoca de um ranking ou ordenação; a da corrida ou competição por etapas ou por adição de sucessivos resultados parciais, que tende a premiar a regularidade, geralmente medida ao longo de um período relativamente extenso (p. ex., um mês, um ano); as provas chamadas de poules, de confronto entre dois adversários, em que todos competem contra todos mas sucessivamente, apurando-se o somatório final dos resultados obtidos; as provas de eliminação directa, também de confronto entre dois adversários mas em que uma derrota provoca inexoravelmente a exclusão da competição e o vencedor derradeiro só se decide num encontro “final”; a lógica do chalange round (hoje bastante caído em desuso), em que o campeão em título pode ser desafiado por adversários que o mereçam, seja pela ousadia do desafio, seja por terem vencido todos os encontros prévios em sistema de eliminação directa; finalmente, o mais leal e isento de todos estes tipos de organização competitiva é o da performance individual em que cada qual executa o seu exercício sozinho, tentando o melhor resultado medido em unidades de tempo ou outras, quantificadas (em uso, por exemplo, nas corridas “contra-relógio”, nas pontuações atribuídas por um júri a exercícios ginásticos ou no tiro desportivo).
Todas estas variedades têm vantagens e inconvenientes. Mas mais do que os esquemas técnicos organizativos, conta para a “verdade desportiva” e o benefício geral que as sociedades disso podem tirar a ética ou espírito desportivo revelados pelo comportamento dos participantes, que era o que tinham em vista os fundadores do desporto moderno: competir leal e desinteressadamente, em que o vencedor pode ser aplaudido mas deve simultaneamente estender o braço fraterno aos restantes competidores.

- O anarquismo foi uma doutrina com alguma atractividade e divulgação há um século atrás mas que parece ter perdido todo o impacto social a partir da Segunda Guerra Mundial. Perdeu a disputa ideológica com o marxismo e as correntes sociais-democráticas, mostrando debilidades teóricas perante essas escolas de pensamento e acção política, por exemplo quanto à economia e ao direito, mas não necessariamente nos planos político-filosóficos e ético-humanistas. Por isso, em conjunturas de crise ou grave desorientação dos comportamentos sociais, sempre alguém se lembra de recorrer a algumas das suas “ideias” ou inspirações mais libertadoras ou emancipadoras: as revoltas estudantis e juvenis dos anos 60 e 70; o feminismo e o desabrochar da sexualidade; as mobilizações ecologistas e pacifistas; os movimentos urbanos que levaram à implosão dos regimes socialistas do Leste europeu; ou as manifestações do tipo “Occupy Wall Street” ou dos “99%”. Nesta base, trata-se mais de um libertarismo do que propriamente do anarquismo formulado no século XIX. Este, perdeu-se com a “ignorância” do processo de descolonização, talvez pelo menosprezo demonstrado pelos processos democráticos de representação, muito provavelmente pela desagregação do tecido social produtivo (artesanal-industrial) onde havia encontrado os melhores terrenos de implantação e sobretudo com a “guerra fria” travada entre o Ocidente livre mas capitalista (que não se importou de sustentar várias ditaduras) e o “comunismo” (que realmente era apenas colectivista e ditatorial) que estruturou as relações internacionais durante décadas e onde já não havia lugar para “terceiras vias”.
O anarquismo desapareceu do mapa político mas o socialismo estatal-autoritário fez muito, muito pior, desacreditando com os seus insucessos, crimes e mentiras os melhores ideais que brotaram inicialmente do movimento operário internacional.
Mas se a democracia e o capitalismo saíram vencedores dessa contenda do século XX, não o fizeram sem “danos colaterais” e insuficiências congénitas ou adquiridas, que me proponho agora enumerar, sem qualquer aprofundamento:
1º tópico: Capitalismo e Democracia: dois sistemas, a mesma lógica.
A)    O Capitalismo, como regime socioeconómico (propriedade privada, mercado e concorrência) mostrou-se, em dois séculos, imbatível e o mais dinâmico de todos os sistemas até agora experimentados, apesar dos defeitos que lhe podem ser apontados: antagonismos, desigualdades, materialismo consumista, uniformizador de práticas e culturas. Porém, as alternativas ensaiadas ao longo do mesmo período, ou se revelaram “curtas” (caso da chamada economia social: cooperativismo, etc.) ou soçobraram estrondosamente (com as economias estatizadas e planificadas centralmente, ou mesmo sob formas guiadas pelos princípios da “autogestão” que foram tentadas na Jugoslávia socialista ou na Argélia libertada do colonialismo francês). Assim, a economia de mercado, capitalista, tornou-se o único e o menos mau de todos os modelos aparentemente possíveis. Num plano mais filosófico, também se poderá dizer das suas vantagens e inconvenientes: liberdade, modernização e universalidade; mas também uma racionalidade normativa que esmaga as diversidades e particularismos locais, empobrecendo o conjunto das culturas humanas e não se importando muito com os estragos que pratica sobre a natureza.
B)    Por seu lado, a Democracia verificou-se também como o menos mau dos sistemas políticos praticados até agora, nomeadamente face às ditaduras, às autocracias e mesmo face às monarquias hereditárias (sendo que as ainda subsistentes o são por se terem tornado meros adornos simbólicos da unidade nacional). Diz-se que o poder estatal democrático é o único instrumento capaz de controlar o capitalismo, impondo-lhe regras e certas outras opções não-económicas mas de interesse social evidente. É em parte verdade. Mas o que também se esconde é que a natureza lógica da Democracia é, em boa medida, idêntica à do capitalismo desenvolvido e pós-industrial: à lógica do consumidor, corresponde a lógica do eleitor; a empresa persegue o maior lucro possível; o partido político, o melhor resultado eleitoral, capaz de o alçar ao controlo do poder. Daí que a “publicidade” e a “propaganda” sejam técnicas tão afins. E não deve ser esquecido o papel das Organizações Internacionais desenvolvidas sobretudo no último século, incluindo as de iniciativas dos estados nacionais, mas enfatizando especialmente as organizações não-governamentais.
C)    Quer o Capitalismo, quer a Democracia têm imensas vantagens (sobretudo a liberdade e a tolerância). Por isso devem ser respeitados. Mas também apresentam aspectos negativos que não devem ser ocultados. A crítica continua a ser indispensável.
2º tópico: A crítica: radicalidade e moderação [pontos não desenvolvidos]
A)    O globalismo crítico e os seus limites.
-As experiências do passado.
-As alternativas e os seus protagonistas.
-Os limites e os inconvenientes.
B)    Para um progresso racional, lúcido e humanista.
-A desmoralização do reformismo tradicional.
-É viável uma prática política radical-reformista?
-Uma economia de mercado (prescindindo de uma regulação estatal-autoritária) será possível sem a acumulação capitalista?
-Contar com o conservadorismo: resiste mas também preserva.
-Liberdade e justiça como critérios fundamentais.
-Uma ideologia para todos os povos e comunidades do globo.
-Os indivíduos e os sistemas.
[Escrito cerca de 2003]

-Nos inícios de 2015 publiquei neste Blogue umas “anotações críticas sobre a sociologia que eu conheci”. Agora, no meio de papéis mais antigos (certamente da década anterior, pelo menos), encontrei outras notas dispersas e não desenvolvidas sobre o mesmo tema. Foram provavelmente tomadas em vista de um debate académico, ou sugeridas na sequência de alguma aula ou arguição. Eis o que é possível recuperar de compreensível dessas notas, que apenas indicam o foco das minhas preocupações de então.
O que faz o sociólogo? Metodologias de quê? Investigar o quê? – equívocos a desfazer.
Pertinência da velha distinção entre investigação fundamental e investigação aplicada (ou aplicação do conhecimento científico, como se disse durante um tempo).
Em qualquer dos casos, há passos sucessivos a dar, tais como: a) identifica-se uma questão; b) constrói-se uma problemática; c) discutem-se as teorias e os conceitos pertinentes; d) recolhe-se a informação empírica de base; e) define-se a estratégia do processo de investigação; f) criam-se os instrumentos de recolha de dados, devidamente testados; g) procede-se ao levantamento organizado da informação empírica; h) procede-se à análise dessa informação recorrendo-se às técnicas de análise convenientes; i) apuram-se os resultados e conclusões da análise anterior; j) confrontam-se estes resultados com a problemática de partida e formulam-se eventuais generalizações, propostas teóricas ou novas hipóteses de pesquisa.
No que respeita mais especialmente à investigação aplicada, destinada a responder às necessidades de uma qualquer entidade exterior, ter atenção: α) formulação clara do “pedido”; β) enquadramento teórico-problemático; γ) recolha da informação; δ) análise da informação; ε) resposta ao “pedido”.
Teorias sociológicas. Fazer referências a:
“Complexidade” – afirmação retórica frequente do sociólogo, usada para: enaltecer a dificuldade do seu pensar: desculpar-se pela falta de resultados “positivos”, práticos. Devia, antes, ser mais empregue para alertar para a provável modéstia de eficácia social dos contributos da sociologia para a resolução de problemas imediatos da vida colectiva. A declaração da “extrema complexidade da vida social” deve ser enunciada, sim, mas logo à partida de toda a aventura de pensar cientificamente a actividade dos seres humanos entre si e não necessitar de ser sistematicamente repetida, ritualmente, em cada ensaio de aproximação analítica, ao jeito do “desculpem qualquer coisinha!…”.
“Estática – Dinâmica” – são antigas noções bebidas da Física clássica e da Mecânica (também utilizadas em sociologia sob a influência de Comte). Mantêm-se todavia úteis, heurística e analiticamente, pois permitem distinguir e compreender melhor as “estruturas”, a importância das instituições e das “situações” (no trabalho, família, etc.) e os dinamismos, ou seja, os processos sociais que, a partir daquelas, as animam e dão vida, actuando através da variável “tempo”. Mas convém aqui distinguir desde logo entre o dinamismo dos actores sociais e as mudanças ou transformações sociais, de mais ou menos de largo espectro. No primeiro caso, há processos específicos, susceptíveis de serem analisados, que são da ordem do “jogo”, das interacções, do inter-pessoal-grupal. Exemplificações: indivíduos – grupos – instituições; e acção individual – acção colectiva – legislação ou regulamentação.
A mudança social insinua-se e combina-se com as estruturas e as dinâmicas em simultâneo. Usando uma analogia com a Mecânica da Física clássica – que nada prova aqui, mas serve apenas como auxiliar útil de ilustração – pode dizer-se que a dinâmica corresponde à velocidade, enquanto a mudança corresponde à aceleração do movimento. Isto é, a mudança apoia-se sobre os dinamismos, mas altera-os nas suas características e intensidade, o que facilita ou conduz às mudanças.
Embora a mudança possa ser planeada – e a isto se liga a noção de estratégia, o médio e longo prazo –, os seus resultados são largamente indeterminados.
Sobre esta indeterminação ocorre acentuar dois pontos. Enquanto a indeterminação (imprevisibilidade) das dinâmicas sociais resulta sobretudo de factores como: capacidade de percepção dos sujeitos; qualidade e tratamento da informação circulando entre os agentes; recursos disponíveis; capacidade para definir objectivos e articulá-los com os meios disponíveis no sentido um melhor rendimento da acção (input-output) – a indeterminação (imprevisibilidade) da mudança social provém mais de factores como: a incapacidade dos actores (de maior grau de complexidade e de agregação das suas variedades internas do que no plano anterior) em equacionarem todas as principais variáveis e condicionantes que estão em jogo e, por isso, em desencadearem elaboradas estratégias de eficácia assegurada; ou então da grande diferença de escala e dos recursos disponíveis, fazendo com que certos actores sejam imunes às estratégias (pobres) de outros actores, e estes últimos praticamente não consigam libertar-se do peso dos constrangimentos que os primeiros exercem sobre eles.
Sobre a Crítica. Depois da “crítica da razão pura” (do filósofo Kant), que inaugurou o conceito de criticismo no discurso doutrinário, distinguindo a experiência e o empirismo (razão prática) da razão que deles é independente (razão pura). Depois da “crítica da razão dialéctica” em que Sartre põe em discussão a dialéctica de Hegel e, de certo modo, a dicotomia entre materialismo e idealismo, não deixando de pensar na escola de Marx que sobre aquelas bases estruturara a sua nova conceptualização filosófica. Depois da “crítica da razão indolente” de Boaventura de Sousa Santos, que propõe uma mudança paradigmática nas chamadas ciências humanas, atacando de entrada o que se vem passando nos campos do poder, da ciência e do direito, analisando os pontos de contraste entre modernidade e pós-modernidade, e procurando desenhar uma estratégia de pensamento e acção emancipatória que vá “contra o desperdício da experiência” (2000). Depois destes complexos compêndios de autores consagrados, vem a inevitável pergunta: será que poderemos esperar para amanhã o surgimento de uma “crítica da razão crítica”, onde eventualmente seja possível confrontar o contributo das ciências sociais e humanas com a sua pretensão hegemónica e talvez excesso de auto-estima, na relação que vêm mantendo com as ciências exactas e experimentais, de que talvez tenha sido exemplo antecipatório a polémica pública havida entre Boaventura de Sousa Santos, António Manuel Baptista e Jorge Dias de Deus?
“Ideias” e sociedade. Para além das pessoas que, pelo seu trabalho e pela acção de entreajuda desenvolvida no seio das suas comunidades, são imediatamente úteis a todos os seus concidadãos, nenhuma sociedade com densidade humana pode dispensar: -cientistas; -poetas; -artistas; -espiritualistas (religiosos, deístas ou não); -filósofos; -utopistas (onde se incluem muitos criadores e alguns anarquistas); e certamente ainda outros do mesmo jaez. Não pode prescindir deles mas também não deve sacralizá-los, dar-lhes poder institucional ou instrumentalizá-los (pela funcionarização, subsidiação ou de outra forma). Não é excepção o caso dos sociólogos. Estes são cientistas sociais, desejavelmente autónomos, que pensam, analisam e criticam as intervenções da sociedade sobre si própria. Não são doutrinadores ou reformadores sociais, como se pensava há um século atrás, nem “conselheiros do príncipe”, mas também não são ideólogos ou promotores das estratégias dos próximos aspirantes ao poder.
É absolutamente essencial para quem procure ter uma actividade reflexiva, crítica, sobre o mundo em que vive – e muito mais para um “intelectual” – que regularmente converse e dialogue (e não apenas se cruze no seu caminho) com pessoas comuns, que são as porta-vozes do “senso comum” e geralmente actuam e pensam de acordo com a racionalidade do “bom senso”. Para além da argumentação aprofundada que só pode ser esgrimida entre especialistas e das mensagens estereotipadas típicas dos discursos na rádio e na televisão, tal confronto com o mundo corrente constitui um aferidor da plausibilidade, verosimilhança e capacidade transformadora das ideias. É também um dispositivo anti-autoritário (ou anti-elitista ou meramente relativista) benéfico para a atitude reflexiva do pensador, desde que não seja por ele utilizado com o desprezo ou a sobranceria tão comuns em certas elites.        

A relação com as linguagens. Três exemplos de encruzilhadas da semântica e da sintaxe do discurso sociológico, referindo “pontos fracos” que podem ser sinais de insuficiências, aproximações grosseiras ou formulações “passe-partout”:
1º O uso recorrente da palavra “importante” (adjectivo comummente usado na linguagem quotidiana mas que deveria ser empregue com enorme precaução na análise sociológica: Quanto importante? Importante em relação a quê? Etc.).
2º O mesmo para o termo “interessante” (quererá dizer curioso? Eis uma palavra omnipresente no discurso oral típico dos sociólogos franceses).
3º E ainda podemos juntar a esta pequena lista a expressão “significativo” (rigorosamente, o que é que isto quer dizer? Será para assinalar que existe uma relação – “un rapport” como também dizem frequentemente os mesmos franceses – entre dois fenómenos, processos ou entidades?).
Explorar e exemplificar esta perspectiva de entendimento crítico.
Cuidado com as leituras. Devemos ter presente que as há verdadeiras, falsas e aproximadas. Atenção a: a paixão de ler; o hábito de ler; a necessidade de ler; ler e “tresler”; os efeitos da “opinião pública” e da “opinião publicada”; vantagens e problemas do uso das novas tecnologias de informação e comunicação; as crescentes dificuldades da actualização nas actividades profissionais científicas. 
Modalidades técnicas de leitura:
a)      Ler com atenção: -reter; -esquecer; -anotar; -reflectir; -criticar; - transformar.
b)      Ler “à peine” (passe o galicismo): -em diagonal; -pelas badanas; -pelas sínteses de terceiros; -pelas críticas de terceiros; -por impregnação cultural (ouvir dizer, ouvir discutir, etc.).
c)      Ignorar: -por escolha selectiva; -por impossibilidade ou probabilidade de menor interesse; -por adiamento; -por não encontro físico; -fingindo conhecer, por facilidade (evitar desvios do tema em debate), em contexto comunicativo; fingindo conhecer, mas agora com dolo (no limiar da fraude, por pressa ou preguiça).

Hipótese de questionamento sobre as relações entre os processos de socialização primária dos indivíduos (família, meio social, escola, idioma de comunicação, etc.), a expressividade (facial, gestual) e a linguagem empregue por eles na vida adulta. Tentar registar o enfraquecimento ou perda (ou, pelo contrário, a sua persistência ou reforço) dessa expressividade corporal em relação com o estilo habitual do discurso oral praticado, em particular sobre: -a contenção; -a subtileza; -o refinamento (sobre a elaboração de sentidos significantes).

Por último, podem copiar-se, tal qual ficaram, as notas tomadas no decurso de um debate realizado já neste século na Universidade de Lille após o visionamento de um filme sobre o corpo, no qual, aos referidos jogos de linguagem, se acrescentava le jeu des immages: sur le corps, le soi et les modèles.
Foi então acentuado que “ça ce discute”: la fille aux poils; la fille aux dents; la bonne; le gars de 13 ans; etc. Outro ponto de discussão centrou-se sobre le malheur et la souffrance dûe au décalage entre l’immage et la perception de son corps. Enfim, ficou anotado ter havido consenso sobre o facto de que as imagens e as palavras punham la sexualité “au centre” et dévoilée e que havia juízos já mais dubitativos sobre les différences entre l’intime, le privé, l’inter-personnel et le public, tant en termes de la localisation dans l’espace et le temps, que dûes aux attitudes sociales.


JF / 14.Ago.2017

sábado, 5 de agosto de 2017

Uma camponesa, entre a tradição e a modernidade

Conheço uma senhora aldeã que é um desses casos ilustrativos ainda existentes no nosso país (e em muitos outros) em que se combinam na mesma pessoa as velhas tradições camponesas e algumas das nossas modernidades. É um caso singular, mas também típico da adaptação que os indivíduos são capazes de fazer perante as mudanças das condições de vida que, inexoravelmente, os ultrapassam.
Esta camponesa passou há pouco os sessenta anos, nunca conheceu homem, é atarracada, forte e muito morena, tanto por herança genética como por força de uma vida passada essencialmente ao ar livre, sujeita às intempéries. Os irmãos casaram, abandonaram o casal e foram para as bandas das respectivas, têm filhos e empregaram-se em modestos ofícios industriais. Esta, por ser mulher (ainda por cima pouco bafejada pela sorte da beleza), ficou sempre na casa dos pais, como indispensável mão-de-obra complementar e, a partir de certa altura, como a verdadeira “segurança social” dos velhotes, cujas terras agrícolas ou florestais são dispersas e alcançam poucos hectares.    
Da agricultura e pecuária tradicionais, sabe de tudo: cavar, adubar, plantar, mondar, empar, desbastar, podar, colher e mais o resto. Só acha que não sabe enxertar e não limpa oliveiras e outras árvores grandes porque delas caiu uma vez e considerou que era mais tarefa para homens, ou talvez para não lhe espreitarem as pernas. Não domina qualquer maquinaria agrícola (salvo o accionar do motor electro-bomba que lhe aspira a água de um poço para um tanque de rega superior), mas a pá, a forquilha, a enxada, a foice e o foição, o malho, o serrote, a enchó, a sachola, a tesoura de poda, as peneiras, o forno de lenha e todo o resto da ferramentaria antiga do trabalho da terra não têm para ela qualquer segredo ou dificuldade. Maneja-os com (quase) a mesma potência de um masculino e decerto com mais acerto do que a maioria deles. Já não guia carroças (que apodrecem nas lojas) mas transporta em carros-de-mão qualquer carga de abudos, excrementos, palhas, grãos ou frutos.
A sua inexperiência de afectos carnais foi transferida, há muito, para a lida com os animais de trabalho e criação: os burros e muares já desapareceram, substituídos por máquinas manobradas por vizinhos e pagos à hora. Mas os currais de ovelhas e cabras, os porcos e coelhos, os gatos e cães das redondezas, têm nela uma guardadora reponsável, conhecedora e amorosa. Acaricía os animais, trata-os pelos nomes, faz-lhes a cama e serve-lhes o pasto ou a ração, apalpa-lhes as partes para diagnosticar alguma anomalia, faz o papel de parteira (às vezes, bem difícil), afoga prontamente os excedentes de uma ninhada e só em último caso corre a chamar o veterinário.
É que esta nossa camponesa é uma mulher inteligente que, com outra origem e educação, poderia ter chegado longe. Mais e melhor do que muitos “doutores”. Raciocina com lógica e facilidade. Sustenta longas conversas com propriedade e a-propósito. Exprime-se bastante bem. E tem convicções fortes que se não vergam à argumentação do primeiro letrado que apareça. Até porque, sempre que as canseiras rústicas lho permitem, ela lê tudo o que lhe cai à mão: folhas paroquiais, jornais locais ou mesmo a “imprensa de referência” que lhe seja deixada por algum conhecido da cidade; ouve e fica a matutar sobre os noticiários da rádio e da televisão; segue mesmo alguns dos debates televisivos menos rebarbativos e não raro formula as suas próprias opiniões acerca deles.
Mas volta a ser a camponesa tradicional no que toca ao apego à família próxima, à propriedade fundiária, às celebrações religiosas. Esses, são valores sagrados dos quais nenhuma argumentação a demoverá – salvo em caso de conflito interno entre eles: desavenças em processos de partilhas; algum “acto vergonhoso” oriundo de sacerdote ou de familiar; o tesoureiro da “comissão fabriqueira” que fugisse com o cofre; ou qualquer outro gesto de natureza semelhante. Também são por ela herdadas e assumidas as reputações rasteiras e as malvadezes que por vezes dividem irremediavelmente alguns dos grupos (incluindo do mesmo sangue) que coabitam na aldeia. As histórias-à-lareira ouvidas desde pequenina das bocas dos anciãos familiares são o seu verdadeiro Livro, onde se construiram os valores de referência que orientaram todo o desenrolar da sua vida, nas suas cíclicas repetições, acontecimentos inesperados e definitivos desenlaces. Até que Deus “seja servido” chamá-la à sua presença.

JF / 5.Ago.2017  

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Contrastes estivais

Abordamos hoje três tópicos com escassa ligação ontológica entre si. “E pur…”

1.      Os jovens e a integração social
Em tempo de especial intensidade dos festivais de música, onde há de tudo, vale a pena reconsiderar o que estes encontros têm de positivo, porque quanto ao resto estamos já conversados (excessos, superficialidade, ausência de ponderação ou falsa intimidade). Não esquecemos que os festivais pop têm na base o star system originado nos estúdios cinematográficos de Hollywood e que depois se estendeu à canção ligeira, à actividade televisiva e ao mundo inteiro vergado no século XX ao american way of life. Estamos também cientes de que – tal como as tournées mundiais de cantores famosos – mesmo para organizar hoje Vilar de Mouros, Paredes de Coura, o Rock in Rio, o Super-Bock-Super-Rock ou o Festival do Sudoeste são necessários grandes investimentos financeiros, dispositivos técnicos e publicitários sofisticados, bem como especialistas munidos de diversas competências jurídicas, negociais, etc. (Note-se que não estamos a forçar a nota ao empregar todos aqueles termos em itálico, os quais já nem podemos qualificar de “estrangeirados” porque estão hoje integrados no falar de grande parte das nossas sociedades.) Apesar disto tudo ser verdade, vultoso e pouco edificante em si mesmo, também devemos reconhecer a importância que tais iniciativas revestem para a vida dos jovens (e alguns menos jovens).
É, em primeiro lugar, a fruição da música, em si mesma. Por muito ruidosas que às vezes sejam, surgem com frequência belíssimas composições (harmónica ou ritmicamente), vozes estranhas e execuções instrumentais originais que provocam emoções novas, revisitadas ou profundas em milhares de pessoas que, nessas ocasiões, se evadem de todos os constrangimentos que habitualmente os incomodam e então experimentam uma sensação libertadora que chega a marcar as suas vidas. Não raro, tais experiências sensoriais, impossíveis de conseguir em isolamento (a despeito dos phones na cabeça com que passam grande parte dos seus dias), são vividas em íntima comunhão de vibrações com outra pessoa – e aí se gera um laço amoroso ou erótico de especial intensidade. Não despiciendo mas mais sujeito a desconfianças e susceptível de efeitos nefastos (que nem sequer podemos qualificar de secundários, tal a relevância que por vezes assumem) é o clima emocional gerado entre milhares de pessoas concentradas num mesmo espaço e sujeitas à agressão dos milhares de decibéis despejados sobre o recinto, além de outras encenações encantatórias (luzes, fumos, gestos dos artistas, etc.). Isto constitui muitas vezes um momento extraordinário de emoções e sensações, que apela a novas experiências.
Mas é também aqui que a “irracionalidade das massas” provoca mais perturbações e reacções negativas em cérebros simultaneamente pausados e portadores de memória social, pois lembramo-nos amiúde dos comícios nazis de Nuremberg, dos desastres ocorridos em estádios como no Haisel de Bruxelas ou das comoções e movimentos descontrolados das multidões de peregrinos em Meca. O êxtase ou o Nirvana cohabitam muito próximos do desastre e da morte.
O mesmo tipo de equívocos se passa no desporto. Pratiquei esgrima desportiva a partir dos 14 anos, a sério, e depois, como veterano. Antes como agora, nunca me esqueci de que, além de um confronto de técnicas, recursos físicos, inteligência e vontade, do esvaziamento lúdico da nossa agressividade natural, se tratava de uma imitação simbólica do duelo agónico, em que cada estocada podia representar um golpe mortal. Isto era, porém, balizado por um conjunto de regras partilhadas por todos os contendores, as quais se percebia serem por vezes respeitadas por alguns já na zona indecisa dos limites prescritos, ou então de má-vontade, disfarçando apenas o desejo de esmagar o outro ou de vencer a qualquer preço. Hoje, com a profissionalização dos agentes desportivos e a espectacularização da sua prática, os benefícios mentais da actividade física tendem mais frequentemente a ser ultrapassados pela obsessão da vitória.
E temos também a questão dos “maus exemplos”: álcool, drogas, doping, promiscuidades sexuais, etc. Atente-se ao modo como as pessoas andam vestidas na cidade: tal como na praia. E veja-se a utilização feita pelos jovens dos capuzes que a indústria passou a coser nas golas das suas camisolas de lã ou algodão (ou mais frequentemente de fibra sintética barata). Ao cobrirem as suas cabeças deste modo, eles querem significar uma atitude de dissensão, de exclusão ou auto-exclusão em relação à sociedade “oficialmente instituída”. E se um adulto (um especialista ou um agente da autoridade, porque o simples passante já não se atreve) lhes perguntar se o fazem para se proteger do frio ou do vento, ouvirão provavelmente uma destas respostas: -Não me chateies!; -Não estou nessa cena…; -Eu sou eu e o resto que se f.; -O que é que queres, meu?
A transgressão, na linguagem, maneiras, vestuário, etc., é hoje um padrão de toda a cultura artística, seja a pop, seja mais erudita, e por isso – com a economia a montar tal cavalo e o populismo partidário a não o desperdiçar – não nos podemos espantar com tais manifestações correntes e que a Lei sejam cada vez mais impotente para normalizar comportamentos sociais. Por este tipo de coisas, manifesto o meu desacordo quanto ao ante-título com que o jornalista João Miguel Tavares costuma encimar os seus artigos de jornal: o “respeitinho” talvez não seja muito bonito. Mas o respeito deveria sê-lo.
As pessoas de hoje tem uma relação da psique com o seu próprio corpo incomparavelmente mais livre do que há meio-século atrás. As barreiras do pecado religioso ou do “parece mal” social foram arrombadas, por homens como por mulheres, desmistificando-se e naturalizando-se a masturbação, a homossexualidade ou a (in)fidelidade conjugal, tanto quanto as formas que antigamente se empregavam para as contornar. Porém, os valores da intimidade e da lealdade na relação entre pares são hoje mais difíceis de serem percebidos (e praticados). E, sem eles, vem o risco de tudo se tornar mais grosseiro, fútil ou perverso.
Em contrapartida, o “politicamente correcto” está a tornar-se de tal maneira pressionante que quase constituiu já uma ameaça à liberdade de expressão. Além de vários outros, veja-se o caso recente do dr. António Gentil Martins, vilipendiado de mil e uma maneiras por exprimir a sua opinião sobre matérias de sexualidade. Bem sei que ele utilizou algumas palavras já fora do léxico científico corrente (que contém sempre alguma espécie de censura social, embora erudita). Mas, no fundo, ele não só exprimiu a sua convicção profunda como também os sentimentos que a maioria, com prudência e alguma cobardia, se exime hoje de formular – oferecendo o deleite aos que gostam de “malhar” nesses temas. É preciso, então, recordar Voltaire: «Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas bater-me-ei até ao fim para que o possais dizer!». Embora com uma linguagem rebuscada e pouco clara para a maioria dos leitores, creio que no mesmo sentido vão as reflexões de Pacheco Pereira no Público de 24.Jul.2017 sobre racismo, populismo e a sua crítica pelos radicalismos de esquerda. É que a linguagem – o radicalismo do seu mau uso – voltou a ser um elemento de domínio social.

2.      Europeismo
Há boas razões para desconfiar do “europeísmo”, tal como ele é superficialmente entendido e discutido: um “albergue espanhol” onde tudo cabe, desde as decisões de um “directório” (franco-alemão), à tolerância para com políticas nacionais quase-autoritárias como as da Hungria, da Checa ou da Polónia (estando já longe as ameaças de um Guterres contra o austríaco Haider), à existência de um “euro-grupo” com a importância que adquiriu apesar de inexistente nos tratados formais, ao predomínio dos interesses económicos dos grandes poderes sobre todos os “periféricos”, à asfixiante burocracia centralista da Comissão, aos privilégios dos parlamentares e ao inacreditável despesismo com a sua casa itinerante entre Bruxelas e Estrasburgo, etc. Mas é importante reconhecer a paz e as cooperações reforçadas entre velhas nações rivais que a CEE/UE tem permitido, a existência de espaços de encontro e de vivência construindo progressivamente uma identidade europeia, bem como, finalmente, a presença de instâncias judiciais de recurso comuns a que, em última instância, se devem subordinar os tribunais nacionais, os governos, as empresas e os cidadãos do continente, numa época em que a escala demográfica e económica – além da capacidade técnico-científica – voltou a ser decisiva no nosso mundo globalizado.
É certo que, sendo a ligação à UE e ao Euro fundamentais, estas instituições manifestam precisar de várias reformas, económicas e políticas, talvez em simultâneo com a negociação do Brexit (ou talvez só após, se ainda houver tempo para isso), que: a) revejam as questões financeiras, bancárias e orçamentais; b) instituam políticas coordenadas mais eficazes nos domínios da segurança, fronteiras, migrações, justiça e intelligence; c) dêem caça aos desperdícios e disfunções das instituições europeias (parlamento em 2 sítios, burocracia, presidências rotativas, etc.); d) melhorem, tanto quanto for possível, a legitimação popular e o processo decisional das instâncias de topo da União, mais num sentido confederal do que propriamente federal. Mas muita atenção vai ter que ser prestada nestes próximos anos ao relacionamento externo da Europa com a NATO, os EUA, a Rússia, a China, a Turquia e o mundo árabe (além do resto). E não parece que a simpática Srª Mogherini esteja em condições para o fazer cabalmente.

3.      Economia globalizada
O desenvolvimento da economia moderna, de mercado e livre concorrência, sempre foi acompanhado de um paralelo desabrochamento das actividades financeiras, desde que os fechamentos e proteccionismos medievais-corporativos cederam sob a pressão das filosofias liberais do século XVIII e algumas revoluções e transformações políticas posteriores. Esta evolução foi-se acentuando ao ritmo de décadas, com ocasionais crises do sistema económico-financeiro e outros conflitos de natureza diferente: lembremos as guerras por interesses dinástico-nacionais e visões estratégicas, a irrupção do movimento operário socialista na cena social e na disputa política, a superação do tabu da escravatura, o afloramento da emancipação da mulher ou os processos de descolonização. Nessas épocas, o poder económico das velhas e novas aristocracias encontrou formas de acomodação com os interesses da grande burguesia (e da média, que ia crescendo) enquanto os pequenos proprietários (de terras, comércios ou meios de produção artesanais) se viram muitas vezes sujeitos a implacáveis condições de sobrevivência, caindo alguns na “proletarização”-a-salário, decidindo-se outros pela migração territorial (para as cidades, o “novo mundo” ou países mais ricos carentes de mão-de-obra barata) e apenas alguns conseguindo medrar como empresários em novas e ásperas actividades concorrenciais. 
Com a unificação dos mercados à escala mundial (parte fundamental da chamada globalização), enfim plenamente possível após a evolução da China ocorrida nos anos de 1975/80 e a queda do bloco socialista liderado pela URSS, o poder das empresas multinacionais acentuou-se aproveitando a fundo os avanços tecnológicos coevos, mas o surto económico “neo-liberal” focou-se especialmente nos sectores do comércio (com acréscimo e sofisticação da correlativa publicidade, conquista de novas populações consumidoras, etc.) e nas actividades financeiras.
Ora, estas últimas puderam multiplicar-se aproveitando a ausência de uma efectiva supervisão mundial, criando muitas vezes (graças a operações de crédito de risco e mesmo manipulações delituosas) uma ilusão de riqueza usufruível por uma “classe média” cada vez mais ampla e inclusiva, embora muito segmentada e sem qualquer “consciência de classe”. Bens de consumo caros e baratos, duradouros ou logo fungidos, viagens e equipamentos (de inovação/rotação acelerada), aquisição de bens de raiz (essencialmente propriedades urbanas, incluindo uma residência secundária) e de toda a sorte de serviços de preço variável desenvolveram-se então desmedidamente, constituindo uma “locomotiva” do crescimento económico a que o sector produtivo (das fábricas, bens primários e produtos de ciência-e-tecnologia) ia dando resposta e simultaneamente estimulando, graças à automatização dos processos laborativos e a algum embaratecimento (relativo) dos custos do trabalho a eles associado.
Neste quadro, as actividades especulativas (sobre os câmbios monetários), os mercados das dívidas (estatais e privadas, empresariais ou particulares) e mesmo as operações ilegais (de drogas e outros tráficos, branqueamento de negócios sujos, etc.) puderam medrar, ao mesmo tempo que gizaram oportunidades de corrupção dos agentes políticos a que estes não souberam resistir – porque também os valores e normas morais (muito ligados às religiões, ao patriotismo e ao espírito republicano) tinham sido entretanto abalados pelos novos costumes, libérrimos ou mesmo libertinos.
No caso de Portugal, foi patente o contraste entre a disciplina rigorosa que a Europa do norte nos tentava impor (também em seu benefício próprio) e o “fartar vilanagem” a que se entregaram dirigentes empresariais e partidários nas suas relações com parceiros como “os grandes” do soba socialista de Angola, o Brasil, a Venezuela, o Médio-Oriente ou onde vigorassem “paraísos fiscais”. O excesso de consumo privado e de despesa pública é negado pelos arautos tradicionais do anti-capitalismo, incluindo aqui a esquerda-caviar à moda do doutor Francisco Louçã e mesmo a inteligente argumentação de um Ricardo Paes Mamede (ver o seu O que Fazer com este País, 2015), para quem todo o mal vem dos empresários, especialmente se forem americanos, e toda a solução só pode vir das políticas estatais. Mas muito da nossa perda de empresas importantes e dos descalabros financeiros de que ainda padecemos teve, na sua génese, decisões tomadas por gente da elite partidária governamental, em estreito conluio com grandes interesses económicos. Ao mesmo tempo, o leque da distribuição da riqueza e dos rendimentos gerados alargou-se, com um pequeno número de “bilionários” e perto de 30% da nossa população encontrando-se no limiar ou em situação plena de pobreza, ainda assim mitigada pela acção pública, sejam os mecanismos redistribuidores do Estado-providência, seja a ajuda das instituições particulares de solidariedade social.
De registar que, se subsistem ainda algumas famílias da alta-burguesia e da aristocracia do nosso liberalismo com forte capacidade económica – pensemos nos Champalimaud, nos Melo, nos Burnay, mas que alguns, como Ricardo Salgado, foram capazes de desbaratar –, os “cabeças de lista” são agora nomes fundadores de novas linhagens familiares com os Amorim, os Belmiro de Azevedo, os Soares dos Santos, os Guedes (dos vinhos e dos casinos) ou os Nabeiro, todos de ascendência modesta, para já não falar dos Zeinal Bava, dos Granadeiro ou dos Mexia que oscilam entre os píncaros da fama e suspeitas menos abonatórias.
Não é verdade que os case studies agora discutidos nas faculdades de economia e gestão se referem a Bill Gates (e a outros que começaram nas garagens paternas), em vez dos Henry Ford de há décadas atrás?


JF/ 28.Jul.2017

sábado, 22 de julho de 2017

Os escritores e o empenhamento sócio-político

Mais do que quaisquer outros criadores artísticos, os escritores ocidentais dos séculos XIX e XX foram muito tentados para fazerem das suas obras literárias oportunidades de crítica social e política ou mesmo para, com maior ou menor subtileza, propagandearem as ideias em que acreditavam.
De facto, deve ser muito difícil escrever uma novela ou romance – sobretudo com os estilos de escrita daquelas épocas – sem produzir juízos de valor sobre a sociedade em que a história se desenrola. E, nessas circunstâncias, passa sempre uma mensagem para o leitor de valorização ou depreciação da mesma, ainda que de forma implícita e não explorada. Porém, o romantismo que dominou uma boa parte da produção cultural de Oitocentos tendeu quase sempre a focar-se nos indivíduos e nas relações interpessoais, nos seus impulsos e estados-de-alma, nos encontros e desencontros proporcionados pelo acaso enigmático ou potenciados pelas paixões, com a consequente desvalorização do ambiente social em que as personagens se movimentavam – salvo nesse papel de mera “tela de fundo” onde evoluíam os actores. Pensemos em escritores como Balzac, Stendhal ou Victor Hugo, em Walter Scott, em Dostoiévki e Tolstoi, ou ainda no nosso Garrett, e podemos associar a arquitectura das suas obras com a arquitectura de pedra, madeira, pintura e outros artefactos dos palácios da Baviera ou de Sintra (bem diferente do efeito que a potência do império fazia pesar sobre os edifícios vitorianos), ou com ecos do que aí se escutaria do piano de Chopin ou dos acordes vibrantes de Beethoven. 
A partir do último quartel do século XIX, as correntes estéticas realistas trouxeram uma ruptura significativa nestes códigos, enquanto se desenvolvia um gosto pelo folklore e o nacionalismo na música e pelo naturalismo nas artes plásticas, cujo término foi anunciado por um Van Gogh ou pelos impressionistas franceses. Na literatura, desviava-se a incidência da sua focagem das pessoas e das suas interacções para o contexto social em que se situavam, o qual, em boa medida, explicaria os seus comportamentos e reacções, pelos “constrangimentos sociológicos” exercidos sobre a liberdade de acção dos indivíduos. Relembre-se que estávamos então nos balbuciamentos iniciais da ciência sociológica – muito marcada pelo mecanicismo positivista, que teve amplo sucesso durante algumas décadas, influindo na política, no direito e nas relações internacionais –, enquanto que, nomeadamente, o estudo do psiquismo humano lutava ainda arduamente para se libertar dos preconceitos associados ao sonambulismo, ao “magnetismo” hipnótico ou à taxonomia das patologias mentais. Os escritores franceses e russos destacaram-se em grande plano nesta nova “escola”, mas que teve cultores em todo o ocidente e transbordou do romance para o teatro e a poesia: Flaubert, Zola, Ibsen, Machado de Assis, Maiakowki e mesmo Erich-Maria Remarque ou John Steinbeck filiam-se nesta corrente. Em Portugal, as obras da “geração de 70”, com Eça de Queiroz à cabeça, ainda hoje nos percutem pelos contrastes do seu radicalismo ideológico com a subtil exploração das emoções e a excelência da sua expressão escrita.
Ao mesmo tempo que o surgimento da pintura abstracta e o florescimento da art déco (e mesmo os primeiros ensaios da música do século XX), da “belle époque” finissecular e da matança guerreira de 14-18 – um trauma que devastou a consciência social de uma civilização –, essa época, dizíamos, assistiu também ao aparecimento de uma literatura irregular, socialmente desinteressada, de que algum modernismo é hoje marco testemunhal, como o são certamente os textos de Pessoa e dos primeiros surrealistas.
Os anos de entre-as-duas-guerras (que foi o auge de tensão da “guerra civil europeia” teorizada por Nolte) tiveram a sua tradução no plano cultural e literário com a luta surda entre estas duas grandes correntes estéticas, que só imperfeitamente correspondiam a alinhamentos político-ideológicos. No entanto, estes foram determinantes para o posicionamento de quase todos os criadores, para a escolha dos temas e mesmo para a esteticização das formas de expressão artística ou a instituição de “escolas”. Por exemplo, na URSS o “realismo socialista” foi erigido em doutrina oficial do partido e do Estado. E prolongou-se pelo mundo através das obras literárias de autores ditos neo-realistas (como, de língua portuguesa, Alves Redol ou Jorge Amado), mas também através do cinema (russo e italiano, sobretudo) e outras formas de expressão artística.
Alguns criadores inicialmente adeptos da ruptura revolucionária de 1917 e por ela entusiasmados, começaram a entender o aproveitamento político que os dirigentes do Kremlin faziam dessa situação e, mais cedo ou mais tarde, afastaram-se da sua obediência, tanto ideológica como esteticamente. Foi, por exemplo, o caso de Malraux, de Breton, de Hemingway ou dos espanhóis Garcia Lorca, Buñuel (no cinema) e Dali (na pintura). Pelo contrário, dramaturgos como Brecht, pintores como Picasso ou poetas como Aragon ou Pablo Neruda permaneceram sempre fiéis “ao Partido”. E, entre os portugueses, que dizer, por exemplo, da evolução de José Rodrigues Migueis ou de Mário Dionísio? Em sentido oposto, outros revolucionários houve, mas libertários como o escritor Ferreira de Castro, o publicista João Campos Lima, os jornalistas Pinto Quartim e Jaime Brasil ou o escultor Altino Maia, que nunca se acorrentaram aos “primos” de Moscovo mas praticaram concepções estéticas bem de acordo com os cânones neo-realistas.
Do lado da corrente modernista, não é preciso evocar alguns dos seus nomes iniciadores (Marinetti, Céline ou Erza Pound) para perceber quanto a sua ligação aos movimentos políticos foi menor ou contraditória. Houve autores fascistas ou proto-fascistas (como aqueles), mas também criadores que “se estiveram nas tintas” para a cor do governo, não recusando aceitar as suas encomendas e produzindo obras de vanguarda contrastantes com a ideologia oficial daquele, como foi entre nós o caso de Almada Negreiros. E seria longa a lista dos modernistas que se colocaram declaradamente do lado mais avançado e progressista dos confrontos políticos do seu tempo.  
Algo isolados e excluídos pelos mentores político-culturais do mainstream situaram-se as sucessivas gerações de surrealistas e alguns “franco-atiradores” não alinhados em parte alguma. Isso não impediu que, em certas circunstâncias, os mesmos tomassem posições políticas, compreensíveis umas, outras menos. Lembremos o caso de Jorge de Sena, exilado voluntário de um país medíocre. Segundo um relato confiável (e confirmado documentalmente), durante a campanha eleitoral de Delgado em 1958, Mário Cesariny foi para a Baixa, sozinho, distribuir aos passantes um panfleto apoiante de sua autoria («Um fragmento de liberdade») enquanto os militantes do PC continuavam a propagandear a condenada candidatura de Arlindo Vicente… E à indomável Natália Correia não faltou coragem para aderir ao PPD/PSD e defender alguns dos seus pontos-de-vista no areópago de S. Bento, afrontando a esquerda.
Os terríveis dramas dos anos 30 e 40 – com o nazismo, a guerra e as suas sequências – geraram o ambiente favorável ao surgimento do existencialismo (Sartre, e um pouco Vergílio Ferreira entre nós), já antes anunciado por um instável ou contraditório Paul Nizan e filosofado por Heidegger. Neste tempo, as migrações são rápidas no espectro político, e em direcções cruzadas, mesmo entre escritores de grande reputação, e com alguns “malditos” como Drieu la Rochelle. Falando da incomunicabilidade, das perplexidades e dos comportamentos do “Homem só”, a corrente existencialista ombreou durante alguns anos com as antecedentes pelo favor de editores e leitores. Concentrando-se no mesmo nó temático mas inserido na grande tradição russa, não podemos esquecer o Pasternak do Doutor Jivago, que o cinema poderosamente popularizou. E numa versão comprometida com experiências ditatoriais, temos a escrita rude de Camilo José Cela, falando da sua Espanha chica.
Mas, para além das modas – sempre com o seu quê de estúpido –, existem as épocas históricas que, sem que alguém o decrete, encerram certos períodos e controvérsias (ou paradigmas) e inauguram outros. As clivagens entre modernistas e neo-realistas, existencialistas e surrealistas (mesmo parcialmente ressuscitadas pelos situacionistas) foram sendo, a partir de meados do século passado, progressivamente obscurecidas pelo surgimento do “novo romance” ou, em Portugal, pelo movimento “poesia 61”. A influência cultural francesa mantinha-se viva entre nós (até porque Paris era então a pátria dos exilados e dos emigrantes ibéricos), primeiro com a insouciance de escrita da Françoise Sagan, depois com Robbe-Grillet ou Marguerite Yourcenar (a primeira mulher a entrar na Academie Française), para já não falar do cinema, do ballet ou da canção. Eugénio Manuel de Melo e Castro, Fiama Hasse Pais Brandão e Almeida Faria, entre outros, assinaram então obras inovadoras, que Eduardo Prado Coelho veio a teorizar a seu modo.
Do presente é mais difícil falar, porque não há recuo suficiente, faltam as sínteses integradoras, a produção literária se mundializou e nós já não a pudemos acompanhar. Fala-se da “literatura de aeroporto” ou da “literatura light” em termos pejorativos. Mas, esta nossa “terrinha” reconduzida à sua matriz europeia e em clima de liberdade viu surgirem novos desenvolvimentos da escrita romanesca, com certos traços surpreendentes. “Digerindo” a dolorosa experiência das últimas guerras do império, escritores como António Lobo Antunes ou Lídia Jorge souberam fascinar as novas gerações. E José Saramago foi capaz de realizar a proeza de, permanecendo sempre um “estalinista” político, ser autor de uma escrita ficcional diferente, que lhe valeu amplo reconhecimento internacional.
Nesta resenha quase endo-psicanalista (porque foram estes, e não outros, os nomes de que me foram vindo à memória?) faltam obviamente escritores inapagáveis e tendências consistentes. Lembro-me agora do caso da “literatura feminina” de uma Marguerite Duras, que entre nós se anunciou com as Novas Cartas Portuguesas. Talvez também de um novo romance histórico, com nomes como Patrick O’Brien, Pérez-Reverte ou Fernando Campos. Mas a lista dos Prémio Nobel é cada vez mais diversa de origens nacionais e divulga nomes de proveniência latino-americana como Llosa ou Garcia Márquez e euro-africana como Coetzee e Nadine Gordimer (a que nós poderíamos associar Mia Couto ou Pepetela). E havia revelado poetas orientais como o indiano Tagore ou o japonês Kawabata (mas não o suicida Mishima, nem o erudito argentino-do-mundo Jorge Luís Borges).
Novos criadores existem agora, no país e lá fora, talvez mais libertos do que nunca das tentações da mensagem política ou da crítica social. Muitos desses que escrevem em português, fazem-no com um admirável domínio da linguagem, precisão do verbo e liberdade temática. Será porque atingimos um grau de civilização superior? Ou porque estamos distraídos do que se passa à nossa porta?
No entanto, para cada um de nós, leitor, nada disto é muito relevante comparado com o prazer genuíno que tal ou tal autor, este ou aquele livro, nos é capaz de proporcionar. Aí, sim, está o fascínio da literatura, o génio de certos criadores e a imortalidade de certas obras – não, nestas arrumações de estilos e escolas estéticas, que só têm interesse para os especialistas aprofundarem as suas análises sobre a produção cultural ou, como é o nosso caso, por “vício racional” de tentar arrumar em prateleiras e gavetas aquilo que brota espontaneamente da sensibilidade de alguns e fascina intensamente muitos mais. 
JF / 22.Jul.2017

(PS: Li com agrado a tomada de posição do historiador e romancista João Pedro Marques no Público de 18.Jul.2917 sob o título “Os flagelantes e a escravatura”. Assinaria por baixo.)

sábado, 15 de julho de 2017

Os militares e a sociedade

Embora muito desactualizado, tenho algum conhecimento do mundo militar, não só livresco. Mas estou de fora dele, o que talvez me dê uma maior isenção nas suas apreciações e decerto uma maior liberdade de julgamento.
Os exércitos foram durante séculos forças privadas ao serviço dos reis e da aristocracia mais elevada. A partir do século XVII, com a afirmação dos estados-nação na Europa, começaram a reconhecer-se também como defensores dos territórios nacionais e das suas populações. O grande choque da Revolução Francesa e da aventura napoleónica fortaleceu a ideia de um exército nacional a que os constitucionalismos liberais do século XIX deram a sua mais forte expressão com o serviço militar obrigatório. Nessa época, os militares ainda juravam fidelidade ao rei e à pátria. Com a generalização dos regimes republicanos ficou apenas o patriotismo, mais as regras sagradas da disciplina e da obediência hierárquica.
Porém, estas referências maiores foram algo abaladas no século XX pela difusão dos valores democráticos da liberdade e igualdade proclamados urbi et orbi, mas talvez sobretudo por uma ténue sensação reflexa de ilegitimidade que se foi decantando sobre a experiência das horríveis mortandades das duas Guerras Mundiais (incluindo milhões de civis na segunda) e das “guerras revolucionárias” desencadeadas na segunda metade do século, que têm prosseguido até hoje sob outras formas de conflito assimétrico (terrorismo, etc.). Neste quadro, os grupos políticos de esquerda, sobretudo alguns dos mais radicais (ou genuinamente pacifistas), estimularam comportamentos antimilitaristas na população sobre a base da percepção – muito generalizada no século XIX e ainda prosseguida no seguinte – de que os militares eram “fautores de guerras”, assim como de golpes-de-estado de sentido conservador ou liberticida. Naturalmente, referiam-se especialmente aos altos-comandos mas viam também no pessoal de enquadramento (oficiais e sargentos) os elementos determinantes na operação de transformar um “homem livre” num “pau mandado”. Pelo contrário, outros sectores radicais do espectro político (de direita mas também de esquerda), apostaram antes na infiltração dos seus agitadores no interior das instituições militares, fosse para neutralizar a sua eventual acção anti-social ou para favorecer um inimigo da sua simpatia, fosse para ter a força militar do seu lado numa eventual disputa áspera pelo poder estatal. A palavra-de-ordem de Mao-Tse-Tung “o poder está boca da espingarda” seduziu muitos jovens de meados do século passado.
O exército sempre corporizou a imagem mitificada da instituição militar. Isto porque a marinha (de guerra) se constituiu desde cedo como um corpo separado, meio-marinheiro, meio-militar, portador de uma identidade cultural mais tradicional, conjugando o “aristocratismo” da oficialidade com a rudeza das marinhagens, mas que o sentido do risco, da aventura, e o brio da sobrevivência uniam de uma maneira muito particular. Além disto, a partir do século XIX, a marinha sofreu, rápida e fortemente, o impacto das modernizações técnicas industriais, enquanto o exército continuava a ser, no fundamental, um rolo compressor de “trabalho-intensivo”. Nascida do nada, nos alvores do século XX, a aviação (militar) improvisou-se, já em pleno “mundo tecnológico” – de cujo desenvolvimento acelerado foi, de resto, um dos melhores exemplos –, tendo, por isso, que inventar uma sua própria idiossincrasia, assente no risco e no destemor, embora focada no domínio das suas competências técnicas (e na importância dos seus custos). Ficou assim um corpo sem tradições antigas, apenas adaptado o necessário às rotinas e rituais há muito vigentes nos outros corpos militares, também porventura frágil na auto-percepção de como podia ser instrumentalizado por interesses (políticos) alheios à sua missão profissional.
As guerras externas em que Portugal esteve envolvido nos últimos dois séculos foram apenas as guerras de ocupação colonial (sobretudo entre 1891 e 1907), o conflito mundial de 1914-18 e as últimas guerras-do-império em 1961-74. Porém, estivemos à beira de outras que tiveram lugar ou se prefiguravam nas nossas vizinhanças geográficas e que obrigaram a esforços intensos de defesa nacional armada, nomeadamente nos casos da guerra civil de Espanha (1936-39), na guerra geral de 1939-45 e na “guerra fria” entre o Ocidente e o Bloco de Leste entre 1950 e 1991. Em todas estas conjunturas, os militares e a nação aceitaram os esforços que lhes foram pedidos, a despeito das críticas de alguns sectores de opinião minoritários.
Em determinadas circunstâncias, as unidades militares intervieram também no plano interno, para impor a lei-e-ordem, a mando do governo legal. E produziram as três mudanças de regime político que o país conheceu no século XX. Porém, depois de 1834, só rara e fugazmente se dividiram em conflito armado, apenas algumas vezes aflorado ou ensaiado e logo apaziguado, mais frequentemente brandido como ameaça para obter efeitos num jogo político nacional de baixa qualidade. Mas hoje, como nos outros países do Ocidente, vivemos numa sociedade pacífica, com subordinação das Forças Armadas ao poder civil democrático, embora o ambiente externo geoestratégico esteja longe de ser tranquilizador.
Em prontidão para combate, os militares portugueses têm evidenciado qualidades de bravura, inteligência de comando e sistemática-e-improvisação logísticas que são francamente comparáveis a forças estrangeiras dotadas de muito melhores recursos. Porém, como em todos os outros exércitos, no resto do tempo e na “vida quarteleira” imperam as rotinas burocráticas, os rituais regulamentares e as práticas sem sentido objectivo – que vão ocultando os subtis jogos de interesses inter-corporativos e as rivalidades na ascensão profissional. Salva-se geralmente o cuidado posto na conservação do património e no bom uso da “fazenda nacional” a seu cargo; e talvez também o profissionalismo de que parecem imbuídas as novas gerações. Com dois adicionais mais recentes: à vista do que nos conta a comunicação social, a desfaçatez do ganho ilícito ou da corrupção vai alastrando por todo o sector público sem encontrar barreiras éticas e legais suficientes; e as instituições para-militares que nas últimas décadas têm proliferado (forças policiais, de protecção civil, etc.) parecem querer imitar alguns dos piores comportamentos que podem encontrar na esfera castrense.
Oxalá a futura realidade possa desmentir as actuais preocupações.

JF / 15.Jul.2017


Post Scriptum: A obediência cega e a disciplina-por-castigo (com o essencial dos louvores para os comandos) eram provavelmente a única forma de lograr que grandes massas de homens fossem vencedoras na batalha. E o rústico nível cultural do pessoal de enquadramento que lhe estava associado era tanto o promotor necessário dessa disciplina como o seu resultado.   

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dilemas terríveis

Estava-se em plena Batalha do Atlântico e a corveta Compass Rose navegava em mar picado rumo a nordeste. O navio era acanhado e escassamente equipado mas o comandante Ericson conseguira unir bem a centena de homens da sua guarnição para o cumprimento das missões que lhes eram atribuídas, essencialmente de escolta de comboios de navios de transporte com subsistências, homens e materiais para as populações e as frentes de guerra aliadas na Europa. Os submarinos da Kriegsmarine atacavam com frequência lançando os seus torpedos em imersão, ora isoladamente, ora em “matilhas”, perseguindo por vezes as suas presas durante muitas horas até acharem o momento mais adequado para terem sucesso.
Passava das 7 da manhã e os quartos preparavam-se para serem rendidos na corveta quando um dos navios que se atrasara um pouco do comboio foi torpedeado, a cerca de 2 milhas de distância. Tocou o besouro dos postos-de-combate, o comandante subiu rapidamente à ponte, ordenou “toda a força a vante” e a proa conveniente ao homem-do-leme de modo a acercar-se da zona onde umas dezenas de náufragos tentavam sobreviver, apenas com os seus coletes salva-vidas. Minutos depois, da cabana do asdic, o marinheiro operador lançou o grito: “Contacto! Tenho um eco no azimute um-três-cinco vermelho”. Talvez influenciado por tal notícia, o grumete de vigia a bombordo disse então que lhe parecera ter avistado um rasto branco de periscópio ou snorkel, entre a carneirada da pequena ondulação. O comandante dirigiu para lá o seu navio mas ficou sem respiração quando deu conta que se tratava, afinal, da mesma zona onde se encontravam os náufragos, esbracejando: uns quarenta, calculou por alto. Se o submarino inimigo estivesse ali, as bombas de profundidade que lançaria decerto os matariam a todos. E as ordens do Almirantado e do Gabinete de Guerra de Chuchill eram taxativas: tudo devia ser sacrificado ao objectivo de pôr fora de combate um navio inimigo ou salvar uma unidade da Navy.
A seu pedido, o imediato confirmou do asdic: “É um eco autêntico. Só pode ser o submarino, que agora nos ameaça!”. Em tais condições, nem pensar parar as máquinas da corveta e pôr na água as baleeiras para resgatar os náufragos: seria oferecer um alvo imóvel aos boches. Dilacerado pelo dramático pela situação, Ericson assumiu o dever de todo o comandante em combate: ordenou “Pronto a atacar!”, completando com os dados de regulação da profundidade das bombas, de acordo com o posicionamento do “eco”, já apenas a 300 jardas de distância.  E, num sofrimento moral atroz, soltou a voz de “Fogo!”.
Como é sabido, a superfície do mar estremeceu sucessivamente em círculos concêntricos brancos donde se elevavam gerbes com vários metros de altura. Os corpos dos desgraçados saltaram como bonecos desarticulados, muitos ficando despedaçados à tona de água. Toda a guarnição da corveta estava lívida e alguns fitavam o comandante tentando entender o seu estado de espírito. Mas, caso estranho, não boiaram destroços do submarino nem apareceram manchas de óleo à superfície. Passaram os minutos, agora com o inglês a pairar, na expectativa, sem compreender muito bem o que se passava. O “eco” da detecção fora-se atenuando e quase desaparecera. Vários marinheiros se interrogavam sobre o que, de facto, acontecera; se o alemão os tinha ludibriado e escapado ao castigo; ou se…
O lieutenant-commander Ericson mandou finalmente a “dar volta” aos postos-de-combate e regressar à navegação a bordadas, reocupando o seu lugar na escolta. Conferenciou com o imediato e, em seguida, fez seguir uma mensagem secret para o comodoro do comboio. Nela dava conta do sucedido e aventava a hipótese de o “eco” do asdic ter sido, afinal, do casco do navio torpedeado descendo no oceano, e não do seu executor. E pedia para ser substituído no comando logo que fosse oportuno.
Este é – mais coisa, menos coisa – um caso relatado, com superior qualidade literária, por Nicholas Monsarrat em The Cruel Sea, livro que alguns liam nos anos 60. É um dos dilemas com que sempre se confrontam os chefes militares no terreno, especialmente quando envolvidos em guerras irregulares e assimétricas ou quando se batem no mar contra outros marinheiros que, num instante, podem deixar de ser inimigos para se tornarem náufragos que devem ser socorridos, na medida do possível. Esse é um drama de todas as guerras e de grande parte das situações de emergência, para as quais se exigem uma sólida formação moral e a plena assunção de responsabilidades pessoais. Mas cabe à sociedade evitar que tais situações aconteçam.
JF / 8.Jul.2017

(Dedicado ao meu velho amigo Zé Carlos B.B.S., que foi perito na matéria)

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