sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

E as “férias de-fim-de-ano” chegaram com uma geral consciência cabisbaixa ditada pelo fracasso da Conferência de Copenhague, pela insegurança da recuperação da crise económica e, no nosso plano interno, pelas saturantes questiúnculas políticas dos que disso fazem modo de vida.
Anunciando-se difícil, estimava-se contudo que a presença na Dinamarca dos principais líderes mundiais acabasse por levar a um acordo, ainda que insuficiente para os mais exigentes. Mas o que se viu foi o estilhaçamento das precárias coligações internacionais e desta diplomacia assembleária, acutiladas pelos media e pelos inefáveis protestantes (que pretendem falar em nome dos povos e de certa maneira constituem uma “consciência acusadora” face aos dirigentes estatais, mas desde logo se destacam daqueles pelos recursos que lhes permitem tal presença nestas cimeiras… para já não falar na minoria de violentos e provocadores que sempre os acompanha). Os USA e a China trataram entre si, e acabaram por não se entender; a Europa teve dificuldade em manter a unidade inicial, face à vontade de protagonismo de franceses e alemães; o Brasil procurou alçar-se ao patamar que ambiciona, mas não conseguiu disciplinar os radicais latino-americanos (Chavez, Morales…) e o “grupo dos 77” acabou fragmentado; a Rússia manteve-se na sombra mas as suas responsabilidades são também enormes; finalmente, a condução política dos trabalhos foi muito acusada de incapacidade e deficiências.
O importante é agora o que esta sociedade mundial dos estados conseguir aprender com tal insucesso, em modo bilateral e multilateral. E que as opiniões públicas fiquem vigilantes e aproveitem as melhores lições que a crise económica global (sob este pano de fundo de insustentabilidade ambiental) pode permitir tirar, refreando os apetites e impulsos consumistas e chamando à responsabilidade aqueles que nos têm orientado, na política como na economia.
JF / 25.Dez.2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

The kindeness offensive, um exemplo de solidariedade

Agora que o Natal chega, aproveito para chamar a atenção para um movimento “de prática aleatória, a grande escala, de actos de bondade” fundado em Londres, em 2008, por Benny Crane, David Goodfellow, Callum Teach e James Hunter: http://thekindnessoffensive.com/ integrado a nível mundial no http://www.worldkindness.org.sg/.
Em tempos de recessão, quatro jovens londrinos criaram um original movimento de solidariedade, num autocarro de dois andares, pintado para a ocasião, fazem a volta dos bairros pobres de Londres onde chegam a distribuir cerca de 3500 cabazes de Natal e milhares de presentes.
É um exemplo da chamada “sociedade civil” a agir contra a pobreza, trata-se, claro, de pouco, para o que é necessário fazer, mas é um exemplo a seguir e a multiplicar…
Mário Bruno Cruz/20.Dez.09

sábado, 12 de dezembro de 2009

Barack Obama e a não-violência

Barack Obama foi a Oslo receber o prémio Nobel da paz. Do seu longo discurso, que mais pareceu um programa político que um agradecimento de circunstância, retenho antes de mais as passagens dedicadas à não-violência. Disse ele, no essencial, que a não-violência de Gandhi ou de Luther King não é realista nem pragmática e que um movimento não-violento não serve para derrotar inimigos poderosos. Nenhum movimento não-violento teria sido capaz de derrotar Hitler, acrescentou.
Estas afirmações são porventura as mais significativas do seu longo discurso, já que, classificando de inútil a não-violência, Obama acabou por justificar a violência como a única estratégia possível no actual contexto de conflito. Por isso se apresentou em Oslo como o político que acaba de enviar trinta mil jovens estadunidenses para matar (e morrer) no Afeganistão.
A forma como o presidente dos Estados Unidos tratou a não-violência é apenas uma. Há outras e aparentemente tão verdadeiras e convincentes quanto a dele. A não-violência já provou ser capaz de derrotar inimigos tão poderosos como o exército britânico ou o poder branco dos Estados Unidos. E podemos pensar com boas razões que teria sido capaz de parar os exércitos de Hitler caso a desobediência civil das populações europeias tivesse tomado as proporções que tomou na Índia de Gandhi.
Barack Obama mereceria decerto o Nobel da paz caso partilhasse de convicções semelhantes e usasse o seu poder para lhes insuflar vida e realidade prática, dando um alto e novo exemplo moral ao mundo, capaz de o equiparar às grandes figuras da não-violência do século XX. Assim, tal como se apresentou em Oslo, defendendo a ideia da guerra justa (tão velha afinal como Agostinho de Hipona ou o cristianismo ao serviço do Império romano do Ocidente), Obama é só na História actual uma oportunidade perdida. Não mereceu receber o Nobel e melhor lhe ia deixar o prémio nas mãos dos jurados.
Jerónimo Leal / 12 Dezembro de 2009

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

A Conferência de Copenhaga

A propósito da Conferência de Copenhaga uma posição importante, no boletim State of the Planet do The Earth Institute da Universidade de Columbia, o link é o: http://blogs.ei.columbia.edu/blog/category/copenhagen/ , Kevin Krajick diz-nos que a conferência vai e deve falhar e falhando poder-se-á então obter um tratado verdadeiramente radical, citando uma entrevista de James Hasen ao Guardian, o link é: http://www.guardian.co.uk/environment/2009/dec/02/copenhagen-climate-change-james-hansen , na qual este cientista diz que a via escolhida pelos líderes mundiais é uma via que nos vai conduzir ao desastre, por ser pouco ambiciosa. Os tão propalados 2º graus afinal não chegam e tem de ser possível travar o desastre que afectará sobretudo os mais pobres e a nós todos também.
Mário Bruno Cruz/7.Dez.2009

sábado, 5 de dezembro de 2009

1º de Dezembro: tantas datas

O 1º de Dezembro deste ano de 2009 foi referência para vários acontecimentos, passados e actuais. Os (neo-)nacionalistas e patriotas lembram-se dos espanhóis de 1640 e temem a sua superiorização económica presente. A vaga liga de estados latino-americanos lá se desembrulhou em Lisboa dos sarilhos políticos do momento. E a Europa oficial veio também celebrar o seu re-arranjo institucional para os próximos vinte anos junto à torre de Belém.
Enquanto isto, Dezembro abriu com organismos internacionais a anunciarem para Portugal a superação dos 10% na taxa de desemprego e uma recomendação de forte contenção na despesa pública, ao mesmo tempo que nos noticiam quase diariamente encerramentos de empresas industriais, todos se viram para pedir ajuda ao governo e no parlamento se ensaiam as esperadas manobras de chicana partidária.
Finalmente, também Obama se decidiu pelo envio de mais 30 mil para o Afeganistão, esperando que os europeus correspondam com os restantes pedidos pelos chefes militares para “estabilizar a situação”, e se vai esgotando o prazo concedido ao Irão para mostrar “boa vontade”.
De novo com receios de que outra “bolha” rebente nos mercados financeiros, em alta talvez exagerada nos últimos seis meses, o final deste ano apresenta-se, pois, mais carregado de ameaças e incertezas do que assente numa modesta mas confiante recuperação da queda económica (produtiva e comercial) ocorrida em 2008/2009. Veremos o que nos acrescenta a cimeira de Copenhague sobre as alterações climáticas.
JF / 4.Dez.2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Os limites da democracia

A mais velha democracia da Europa, aquela que desde sempre foi apontada como um modelo genuíno de governo popular, aprovou no domingo a proibição de minaretes nas mesquitas muçulmanas. E fê-lo por um dos processos democráticos mais transparentes e reconhecidos, um daqueles que implica de forma directa o cidadão na criação das leis, o referendo.
Ainda assim, o que saiu desse plebiscito é um atentado grave contra a liberdade religiosa. Com a nova lei, que implica uma revisão constitucional, os muçulmanos vêem-se obrigados a rectificarem aspectos do seu culto, adaptando-o à nova lei, e inclusive a alterar a arquitectura dos seus monumentos.
A Suíça com uma tal decisão, que vai a par de outra não menos desumana de continuar a exportar material de guerra, coloca-se na retaguarda da civilização. Melhor parecem andar monarquias teocráticas como Marrocos, onde, que se conheça, as igrejas romanas ainda não perderam os seus campanários ou crucifixos. Mas com tais exemplos –não haja ilusões – depressa perderão.
Jerónimo Leal / 2 Dezembro 2009

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