quinta-feira, 26 de julho de 2012

Os grandes espectáculos desportivos

O desporto foi uma novidade absoluta do século XX. É claro que sempre houve torneios para entretenimento das elites ou jogos populares para alegrar as festas domingueiras. Mas as actividades físicas regulamentadas abrangendo milhões de pessoas de todas as condições e ainda mais milhões a presenciar e a vibrar com as emoções competitivas nos estádios foram inauguradas na nossa época.
No século XIX, esgotadas por um labor manual intenso, clamaram as massas trabalhadoras por um suficiente tempo de descanso, lazer, convívio e cultura. Sonhavam os seus porta-vozes que, com descanso semanal alargado, férias pagas e estruturas apropriadas, as “classes baixas” pudessem tornar-se mais instruídas, conscientes, felizes e saudáveis – inclusive mediante uma prática física adequada.
A economia e o progresso técnico permitiram, em poucas décadas, libertar tempo disponível de não-trabalho. (Idem, de maneira forçada, para os presidiários e os desempregados, numerosos em tempo de crise.) Mas, um século passado, esse ideal parece ter-se tornado num problema: a não-ocupação de amplas populações seria um poderoso potenciador da marginalização social, da delinquência, da droga, do insucesso escolar. E o desporto, incentivado por eventos-espectáculo e pelo sucesso de campeões de origem social modesta, ao ser praticado pelas grandes massas, sobretudo juvenis, seria o antídoto possível contra esses males – tal como a escola.   
As corridas (atléticas, de bicicletas, de automóveis, de veleiros, etc.), certas modalidades de pavilhão, o ténis e, sobretudo, o futebol tornaram-se mega-espectáculos desde o momento em que a televisão tomou conta da sua difusão urbi et orbi, e sobre esse fenómeno se edificou uma “indústria” apetitosa para muita gente.
Tivemos há pouco um campeonato europeu onde, a despeito do profissionalismo apátrida de todos os futebolistas, milhões de pessoas voltaram a deixar-se envolver pela paixão dos golos ou pelo desespero das oportunidades perdidas ou das derrotas nacionais inconsoláveis. Agora, Londres vai receber os seus terceiros Jogos Olímpicos, o acontecimento desportivo de mais alto valor simbólico, apesar do amadorismo do barão Pierre de Coubertin já ter passado à história e de uma organização desta dimensão poder arruinar as finanças, até de um país equilibrado e prudente como a Grã-Bretanha.
Queria alguém que fosse Cristiano Ronaldo o porta-bandeira português no desfile inaugural. Francamente!... O rapaz é um extraordinário atleta, mas também um dos profissionais mais bem pagos do mundo da bola e um desses ícones mediáticos que só valem pelo look, pré-fabricado. Seria do pior gosto possível misturar um dos maiores expoentes actuais do “negócio futebolístico” com o que resta de ideia de competição pacífica, universal, entre pessoas (e não entre países), de esforço de auto-superação e sem objectivos lucrativos que os Jogos Olímpicos, apesar de tudo, ainda procuram representar.
JF / 26.Jul.2012

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Os comunistas

“Nada se pode fazer sem os comunistas. Mas também nada se pode fazer com eles”. Esta conhecida fórmula traduz bem a impossibilidade do dilema que desde há muito bloqueou os caminhos da área da esquerda política.
Marx terá alguma responsabilidade nisto, pelo estatuto científico que pretendeu atribuir à sua visão da economia capitalista do seu tempo. Mas Lénine é que foi o verdadeiro inventor dessa cultura que ainda hoje impregna os adeptos da foice-e-martelo, e que pode talvez resumir-se nestes cinco pontos: 1º, no mundo, só se vence pela força e pelo ardil; 2º, o poder estatal, com todas as suas alavancas, é o objectivo fundamental da acção política; 3º, o partido da ‘nossa causa’ deve funcionar com a disciplina de uma máquina militar; 4º, nenhum escrúpulo ou preocupação ética deve perturbar a decisão fria e implacável tomada pelos dirigentes e responsáveis; 5º, o discurso público tem de ser sempre pronunciado em nome e a favor de uma ampla entidade colectiva efectivamente prejudicada por outras, podendo ser “a classe operária”, “o povo”, “as nações oprimidas pelo imperialismo” ou agora “os jovens”.
Deste modo, independentemente dos processos trituradores de toda a oposição interna, os comunistas tornaram-se mestres na arte política da “flexibilidade táctica”.
É verdade que os comunistas portugueses foram dos mais perseguidos pelo regime de Salazar mas, hoje, pode até compreender-se que, em certa medida, eles fossem vistos como “agentes de um país hostil”.
É também certo que a URSS sofreu como nenhum outro país a bestialidade da invasão nazi. Mas não fosse a loucura de Hitler em querer ganhar duas guerras ao mesmo tempo e talvez o pacto germano-soviético tivesse sido muito mais duradouro e os comunistas se não vangloriassem hoje de terem sido os heróis da luta anti-fascista.
De igual modo se pode entender o sucesso do capitalismo-de-estado chinês actual: desde que o PC não perca o monopólio do poder político, tudo é bom para fazer crescer a força económica do gigante asiático no mundo: exploração do trabalho, desigualdades sociais, espionagem industrial ou devastação ambiental.
A queda fragorosa do “bloco de Leste” na Europa há duas décadas deveria ter feito reflectir profundamente os simpatizantes destas ideias. Largas massas se desencorajaram ou foram “lutar” para outras bandas. Mas importantes minorias de pessoas bem-intencionadas continuaram a acreditar nelas (como é o caso em Portugal). Quem não tem desculpa são os chefes e os ideólogos; e pouca, têm-na os “militantes do colectivo” que fazem funcionar “a máquina” e dela tiram a sua razão-de-vida. Até que a vida biológica faça o seu “trabalho”.
JF / 20.Jul.2012

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Pessoas frágeis e solidariedade social


Em Portugal devemos ter hoje mais de dois milhões de cidadãos adultos cujo rendimento os coloca abaixo do limiar de pobreza: pensões sociais, RSI, antigos agricultores, mulheres domésticas, etc. São centenas de milhar as pessoas com problemas de saúde crónicos, acidentadas ou inválidas. Temos dois milhões de pensionistas idosos. E é superior a meio-milhão o número de imigrantes estrangeiros que para aqui vieram em busca de uma vida melhor, a maioria dos quais labuta nos níveis mais baixos de retribuição salarial, com garantias precárias e dificuldades de re-enraizamento sócio-cultural. Estes números são grosseiros mas aproximam-se talvez de metade da população residente no país. É verdade que haverá aqui alguns milhares de relapsos ao esforço do trabalho e de aproveitadores das oportunidades oferecidas pelo nosso tão ineficiente “Estado social”, que se justifica sejam controlados e impedidos de o continuar fazendo. Mas a maioria contribui – ou já contribuiu – de maneira socialmente útil para o bem-estar colectivo e não está nas suas mãos alterar a situação presente. Precisam de ser respeitados e atendidos.
Temos ainda mais de um milhão-e-meio de crianças e adolescentes que actualmente crescem rodeados de artefactos técnicos e de estímulos áudio-visuais impositivos, e que uma carreira escolar prolongada empurra para o conhecimento e para a fruição. Nada produzem no imediato mas custam caro ao rendimento familiar e ao erário público, que sustenta o sistema de ensino.
No conjunto, serão à volta de seis milhões as pessoas que, total ou parcialmente, estão inseridos na economia do Estado, seja que este actue como empregador, cliente, redistribuidor da riqueza criada ou gestor das contribuições previdenciais que os activos (com emprego) vão fazendo, mês após mês: activos estes que são os cerca de cinco milhões de indivíduos que dão valor à economia e também são os principais pagadores do fisco – se não contarmos os impostos que todos os cidadãos desembolsam nos seus actos de consumo e outras transacções correntes. 
Em termos contabilísticos, esta economia pública representa mais de metade da riqueza produzida no país. Como é o governo – e, mais latamente, a “classe política” – quem toma todas as decisões nesta matéria, quase poderíamos dizer que nos encontramos em regime socialista, com o picante adicional das regras do jogo serem as da livre iniciativa, da concorrência e do mercado.
Evidencia-se assim a enorme responsabilidade que pesa sobre os governantes desta época, tanto nos benefícios e benesses concedidos às populações e às elites, como no descontrolo e nas dificuldades que agora estamos vivendo.
Historicamente, a eleição de representantes do povo a um parlamento nacional foi feita para limitar o poder do rei de lançar impostos. Hoje, porém, “rei” e “parlamento” confundem-se numa só figura, a elite política – internamente dividida, concorrente e mesmo conflitual entre si –, mas que entretanto se assenhoreou de todos os mecanismos (jurídicos, comunicativos, etc.) de preservação do seu monopólio de poder e estreitou até ao íntimo os laços e os interesses com a elite financeira e económica. (Ressalve-se, até certo ponto, as forças que, por ideologia, se colocam com um pé fora deste regime, casos do PCP e do Bloco de Esquerda.)
Tudo isto significa demasiado poder concentrado em poucas cabeças decisoras (apenas alguns milhares). É verdade que boa parte da solidariedade nacional para com as categorias mais fragilizadas da sociedade tem sido assegurada por IPSS e outras entidades associativas da sociedade civil, principalmente de inspiração católica – ainda assim demasiadamente dependentes das ajudas públicas.
Considerada esta situação, inclinamo-nos a apontar três linhas de orientação para um dia virmos a ultrapassar as dificuldades e iniquidades do presente: 1ª, um maior controlo social sobre a “classe política”, que passará necessariamente por meios mais eficientes de representação popular e de exercício do poder político; 2ª, uma economia e um dispositivo de previdência e solidariedade social mais autónomos e independentes do Estado, sem contudo se deixarem enfeudar a poderosos centros de poder financeiro privados; 3ª, porque os necessitados são hoje muitos e em situação de urgência, todas as decisões políticas têm de prever medidas de excepção que ajudem as pessoas mais frágeis a suportar e a superar a crise actual.
JF / 13.Jul.2012

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Forças de segurança e "duplo uso" dos militares

Os tempos de crise que vivemos são muito maus para a maioria das pessoas e péssimos para uma enorme minoria delas. Talvez esteja o actual governo a fazer o indispensável, mas fá-lo aparentemente sem visão rasgada do futuro e parecendo apenas ter o olhar fixado nos indicadores económicos mais imediatos. A “pequena política” é talvez a especialidade dos políticos mas aos cidadãos devem interessar sobretudo as grandes orientações que marcam o futuro das comunidades, para as ratificar ou para as rejeitar.
Ora, o “estado de necessidade” também deveria possibilitar grandes reformas, que os tempos fáceis sempre sugerem adiar ou dão mais força às corporações-de-interesses para obstaculizar tudo o que lhes altere as rotinas. 
Vem isto a propósito da aparente ausência de iniciativas de fundo para melhorar e racionalizar as forças policiais e de segurança, depois de anos e anos em que se assistiu a debates e experimentações que passaram pela extinção da Guarda Fiscal e a criação do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, as atribulações da força policial rodoviária (Brigada de Trânsito), os alargamentos da GNR para a faixa costeira e as dúvidas sobre a Polícia Marítima, a criação da ASAE (com alguns poderes policiais) e as mexidas na Inspecção do Trabalho (sem eles), a ascensão dos serviços de Protecção Civil, o estatuto militar da GNR, a atribuição de funções de investigação criminal a vários destes corpos e, sobretudo, as delimitações territoriais e funcionais entre a GNR e a PSP.
Parece não haver grandes dúvidas de que as instituições públicas portuguesas terão de ser mais eficientes e gastar menos do que o têm feito nos últimos anos: as duplicações não são toleráveis; a mais intensa cooperação será necessária.
Com a clara concentração e urbanização do povoamento, não seria de entregar toda a segurança urbana à Polícia, deixando talvez à “Guarda” (além das vistosas exibições protocolares da República) o exclusivo controlo do espaço rural desertificado (mas do qual é preciso cuidar: fogo, crime, ambiente, etc.), incluindo as fronteiras terrestres, agora que já não tem sentido para o Exército a ocupação territorial?
Justificar-se-á a Polícia Marítima, ou poderia ela integrar-se como unidade especializada na referida GNR? Ou, ainda, ser directamente a Marinha de guerra – no conceito que vem sendo sustentado de “duplo uso” (e que faz parte da sua identidade histórica) – a assegurar tal função de policiamento da costa, além do controlo do mar oceânico que mais nos interessa?
A sugestão da Força Aérea para se ocupar também de alguns meios de acção contra os incêndios florestais surgiu com grande oportunidade e sentido de emergência nacional, sem prejuízo das suas missões no espaço aéreo, seja no transporte, na vigilância ou, em último caso, no recurso à força.
E o Exército será provavelmente levado a rever em baixa o seu actual dispositivo de combate para um nível compatível com os recursos existentes, sem afectar o núcleo essencial das suas missões próprias, mas colaborando em diversas tarefas de paz ao seu alcance e aceitando as reduções de créditos e condições que se impõem aos outros cidadãos.
Há um ponto, em particular, onde todas estas corporações militares deveriam fazer esforços adicionais de rigor e contenção: o economizar nos lugares de chefia superior e nos velhos artifícios das saídas e entradas de oficiais nos quadros, de molde a que quase todos atinjam o posto de coronel (e talvez demasiados os de oficiais-generais), contornando assim a sábia regra da “pirâmide”, que lhes permitia aliás alguma superioridade moral no confronto com outras profissões onde, por ausência de uma hierarquia selectiva, todos (os melhores e os fracotes) se acham com direito a chegar ao topo da carreira.
A vida está difícil para quase todos, mas há (boas) decisões que só nestas horas podem ser tomadas.
JF / 6.Jul.2012

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