quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Um (jogo de) massacre!

Os dias de meados de Agosto de 2013 devem ficar assinalados para muitos e por muito tempo como os de uma terrível carnificina de que foram vítimas milhares de pessoas de religião islâmica nas ruas do Cairo. Mas o caso merece mais aprofundamento do que a imediata responsabilização do governo ou dos militares por tais acontecimentos.
Comecemos por lembrar que o Egipto é um grande país do próximo-oriente, de 80 milhões de habitantes, com uma história fabulosa e uma localização geo-estratégica  ímpar naquela região, de ligação da África à Ásia Menor e do Mediterrâneo ao Mar Vermelho e ao Oceano Índico. Por isso foi durante os últimos séculos ocupado pelo império turco-otomano, assaltado por Napoleão e controlado militarmente por ingleses e economicamente também por franceses (por intermédio da Companhia do Canal de Suez) até meados do século passado.
Ainda hoje a sua economia assenta em grande parte nas taxas que cobra à navegação que ali passa obrigatoriamente, bem como no turismo que nas últimas décadas se desenvolveu à sombra das suas riquezas arqueológicas, nas suas capacidades de produção de energia (carvão, petróleo, gás e exploração hidroeléctrica) e numa agricultura que alimenta a metade da população que actualmente habita enormes cidades de arredores pobres e vive sobretudo do pequeno comércio e da prestação de serviços pessoais.
Todos falam o árabe e 90% da população é de religião muçulmana sunita mas existe uma importante e antiga minoria cristã copta (9%). O Cairo e Alexandria, sobretudo, são centros urbanos cosmopolitas e modernos, com núcleos sociais ocidentalizados que ocupam as posições de maior estatuto simbólico e rendimento económico, nas empresas, na cultura e na administração pública. Mas as desigualdades económicas e sociais são muitíssimo acentuadas com uma enorme fracção da população vivendo em situação de pobreza ou miséria.
A instituição social mais importante do país é provavelmente a das Forças Armadas, aureoladas pelo prestígio nacionalista que lhe foi conferido pelos “oficiais livres” que derrubaram a monarquia e combateram contra Israel, mas com quem também assinaram a paz, a troco dos dólares dos americanos, que lhes actualizaram o armamento e a instrução. Dispõem de moderno equipamento e 450 mil homens, suficientemente bem pagos, ao ponto de se manterem unidos e obedecerem aos seus chefes, sem se deixarem até agora infiltrar por dissidências políticas ou religiosas. E, como aconteceu em tempos em Portugal e noutros países, estes militares têm tido sobretudo um papel político interno de manutenção da integridade do país e da unidade do Estado, mais do que de defesa nacional contra ameaças externas, como se considera ser hoje a sua função. Tudo isso acompanhado, claro está, de benesses e favores de que está excluída a esmagadora maioria da população. Acresce que, no caso do Egipto, o exército assegurou praticamente a governação do país durante meio século (tendo as eleições e o parlamento papéis menores), teceu laços de interesse económico com os mais ricos e organizou a polícia e uma guarda republicana protectoras deste regime.
Por seu lado, a Irmandade Muçulmana é um movimento sócio-político de carácter religioso, fundado no Egipto em 1928 e ilegalizado desde os anos 50 mas que criou fortes raízes na sociedade, sobretudo através de instituições escolares e de ajuda aos mais desgraçados. Defendendo uma vertente secular e política do Islão, tem sido vista por alguns como uma força relativamente moderada (comparada com a Al Qaeda, por exemplo), que poderia aceitar as regras do jogo democrático, e por outros como perseguindo (sem o afirmar) o estabelecimento da charia e de um estado confessional islâmico.
Mas recordemos a cronologia dos principais acontecimentos: em Janeiro-Fevereiro de 2011 Mubarak é derrubado por um impressionante movimento urbano de contestação que reclama liberdades e um governo democrático, com os militares a absterem-se de o contrariar; em 2012 realizam-se eleições, acabando por ser escolhido para a presidência da República o “irmão muçulmano” Morsi, com um pouco mais de 50% dos votos; sob o impulso deste, terão sido decretadas medidas e nomeados altos responsáveis que fazem os laicos, os democratas e as minorias religiosas temerem uma evolução “islamizadora” do país; a 30 de Junho de 2013, no aniversário da sua posse, milhões de egípcios descem às ruas para reclamar a saída de Morsi (com talvez 16 mortos no terreno, sendo estes números sempre duvidosos), o que encoraja o exército a fazer um ultimato ao presidente; depois de mais uma vintena de vítimas mortais na véspera, no dia 3 de Julho os militares, chefiados pelo general el-Sissi, fazem o seu golpe-de-estado prendendo Morsi e pondo interinamente no seu lugar o presidente do tribunal constitucional Mansour; a Irmandade Muçulmana lança para a rua milhares de manifestantes, reprimidos pela polícia e pela tropa com carros blindados a bloquear determinadas artérias e com o resultado de um número crescente de mortos: 4 no dia 4 de Julho; talvez 48 no dia 8 frente às instalações da guarda republicana onde supõem estar preso Morsi; mais 10 no dia 22; e talvez 800 (e milhares de feridos) no dia 14 de Agosto e seguintes, quando é decretado o estado de emergência e o recolher obrigatório. Do lado das forças da ordem somam-se também dezenas de mortos e centenas de feridos, pois os protestos dos “irmãos” não são propriamente pacíficos: além de encherem certos locais de trânsito na cidade do Cairo com barricadas pesadas protegendo os seus acampamentos, respondem frequentemente com balas e “coktails Molotov” às “operações de limpeza” e outras investidas policiais. E já passaram ao assassinato de três dezenas de polícias reféns, além da devastação de igrejas cristãs, etc.
Dada a desproporção de meios de força, só podem qualificar-se de massacre estas acções de reposição-da-ordem. Mas parece ser esse precisamente o efeito procurado pelos Irmãos Muçulmanos. Não se trata (ainda) de tácticas de guerra civil ou de terrorismo bombista como aquilo que se vem praticando na Síria ou no Iraque. Trata-se, sim, da exploração da assimetria de papéis, recursos e disposições que caracterizam militares e islamistas no presente cenário.
A despeito da detenção nos últimos dias de muitos dos seus dirigentes e de milhares de militantes ou adeptos, as chefias militares parecem ainda hesitar entre estender a mão ao movimento convidando-o a participar no processo político democrático (um pouco como no nosso 25 de Novembro de 1975 foi a posição de Melo Antunes para com o PCP e a extrema esquerda) ou, pelo contrário, criminalizá-lo sob o labéu de “terrorista”, decapitando a sua direcção, ilegalizando-o, perseguindo as suas obras e actividades, e esmagando as suas veleidades de existência e predomínio.
Mais uma vez, repete-se a situação historicamente conhecida de uma fracção significativa da sociedade política, porventura minoritária mas imbuída de um “projecto redentor”, obter nas urnas um resultado que lhe permite o acesso ao poder, do qual fará uso para impor a todos esse mesmo projecto e negando às outras expressões políticas a possibilidade de, do mesmo modo democrático, a desapossarem das rédeas da governação.  
Nestas condições, com embaraço para a Europa e os Estados Unidos, a dinâmica interna desta conflitualidade aguda de forças sociais contrapostas vai prevalecer sobre todos os outros factores em presença. Mas as perspectivas económicas serão porventura mais determinantes para o futuro a médio-prazo do que o contexto internacional envolvente. Por agora, são os petro-dólares do Qatar ou da Arábia que compensam a quebra do turismo ou da venda de hidrocarbonetos aos países vizinhos, mais as restrições comerciais que o Ocidente venha a impor. Porém, acreditando que o exército se manterá coeso (condição sine qua non para evitar uma guerra civil clássica) mas também que o conflito pode entrar numa fase de violência latente prolongada – que contudo não chegará a pôr em causa a rota marítima do Suez (o que alteraria radicalmente os dados do problema) –, tal bastará para que o turismo não recupere e o país mergulhe numa crise económica progressivamente mais acentuada, que alimentará cada vez mais ódios contra o poder militar governante. Acresce que o Egipto é, para além das suas bolsas profundas de pobreza, também um país moderno, complexo, que já não é gerível por uma junta de generais. Os militares “donos-da-ordem” teriam de ser capazes de fazer uma qualquer aliança política com forças sociais com peso real na sociedade, na economia, na cultura e nos saberes técnico-científicos. O que não parece ser uma tarefa fácil.
O Egipto é um tesouro cultural da humanidade, um país e um povo estimável, que merece melhor sorte.

JF / 23.Ago.2013

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A vida não é um filme, não tem banda sonora

Para muita gente, a fronteira entre a ficção e a realidade das suas vidas é uma questão difícil de gerir. Por “suas vidas” quero significar a forma como os indivíduos se comportam e sentem as emoções boas ou desagradáveis, como controlam as afectividades e as pulsões sexuais e temperamentais, como organizam a sua actividade mental naquilo que nela pode ser racionalizado, como desenvolvem estratégias de conduta pessoal e de relação com os outros com vista a atingir determinados objectivos, como se integram na família e em grupos (de amigos, colegas, etc.), como tomam a decisão de ter ou não ter filhos e projectam a sua educação, como encaram o sofrimento e a morte ou o risco de um acidente, como (melhor ou pior) se reconhecem no seu corpo, como se evadem no sono ou através de estimulantes, como assumem o trabalho ou as tarefas que realizam, como gastam o dinheiro de que dispõem, como olham para o país em que vivem e para o mundo político existente, como reagem perante um monumento ou uma obra de arte, como fazem zapping na televisão, como lêem um livro ou um jornal e justificam as músicas que mais apreciam…
Pelo que toca à ficção, há algumas décadas atrás ela esgotava-se quase completamente na teia de um romance ou na rima de uma poesia, nas histórias que os mais velhos contavam à lareira ou em conversas de salão, na pedagogia infantil, nos contos-do-vigário ou nas efabulações em vista de uma conquista amorosa, por fim no cinema que o século passado criou e difundiu para milhões de seres humanos.
Hoje, o reino da fantasia ganhou uma incrível elasticidade de que os “efeitos especiais” cinematográficos, os opiáceos, a música (mais ou menos psicadélica) e o mundo da Internet são suportes e manifestações banais, experimentadas diariamente por ainda muitos mais milhões de pessoas.
Os jovens que nascem neste meio, naturalmente, só nele se reconhecem. O que já foi é, para a maioria, uma amálgama comprimida (télescopée, dizem os franceses) de referências avulsas em que o 25 de Abril se pode misturar com o Eusébio, a escravatura com a revolução russa ou o Cristo com os faraós. Mas o mesmo também acontece com as pessoas de mais idade que apenas tiveram uma escolaridade elementar e hoje se vêem confrontadas com uma avalancha de informação que não dominam, que as tomam por receptáculos/vítimas indefesas e frequentemente as deixam na maior confusão. No caso das más notícias acerca da crise ou da criminalidade que paira, os mass media produzem mesmo, nestas pessoas, estados de angústia que nenhum discurso racional consegue desmontar.
Observe-se, em meio urbano (na via pública, num transporte colectivo ou num café), a gente que passa, focando em especial os que aparentam ter menos de 35 anos de idade. Já sabemos que cerca de um terço deles terá feito cursos superiores e metade se encontra no desemprego ou em ocupações precárias e temporárias. Isso é uma coisa que se sabe (porque as notícias o martelam constantemente), mas não se vê. O que se observa, no uso do vestuário, adornos e gestos das pessoas à vista em nada nos indicia uma situação de preocupação ou de carência. Apostamos que, pelo menos, oitenta por cento delas têm na mão um telemóvel (muitos da última geração) que em breve se põem a digitar freneticamente e, através dele, comunicam com alguém. Talvez perto de dois-terços tenham auriculares enfiados nas orelhas com os fiozinhos descendo para o bolso ou a carteira onde um micro-leitor, às suas ordens, desbobina a música ou a gravação áudio que lhe interessa escutar de novo. Obviamente, cada uma destas pessoas está fechada no seu específico mundo relacional, na sua “rede”, e indiferente ao que se passa à sua volta. Ainda assim, não se pode deixar de verificar que o número daqueles que transportam consigo um livro e o lêem nas inapropriadas condições de um veículo de transporte urbano é hoje maior do que alguma vez o terá sido no passado (escolaridade oblige!).
Depois, o vestuário e a atitude corporal cumprem padrões muito segmentados pela idade/geração e menos pela classe ou estrato social. A moda (vestimentária, dos falares sincréticos e dos gostos) dita aqui, absolutamente, a sua lei, nunca tendo tido tantos seguidores como nos dias de hoje, a despeito da aparência do “escolha você mesmo”. Neste aspecto, a população que enche as escolas, básicas ou superiores, constitui o melhor observatório para uma tentativa de caracterização esta nova cultura urbano-juvenil (como o tem feito o sociólogo Machado Pais), tal como “a noite”, sobretudo a partir da 6ªFeira, e as zonas de bares e discotecas são o laboratório/passerelle onde se desenrolam as trocas comunicacionais e afectivas mais intensas que preenchem o íntimo da maior parte destas pessoas. Porém, aqui, que lugar resta para a comunicação verbal substantiva, mesmo coloquial, para além daquela que ainda é possível trocar no seio do grupo de interconhecimento que se desloca em conjunto a tais lugares de festa? As sensações estimuladas pela música e o álcool, os rituais de sedução e a evasão psicotrópica preenchem a totalidade da interacção humana em tais condições. E as ressacas são a sua mais habitual consequência. Mas com que sabor (só individualmente experimentado)?
Isto pode qualquer observador constatá-lo nas ruas de Lisboa, decerto menos nas suas periferias e talvez também em menor escala em aglomerados mais pequenos, pelas províncias. Em contrapartida, aqui pode-se observar melhor o fervor com que gente de todas as condições se entrega diariamente à sorte da “raspadinha” ou do Euro-milhões acalentando a esperança de um miraculoso alívio dos seus males, uma espécie de “Fátima para todos”, crentes ou não.
E os “festivais” de Verão (de música, ao ar livre) são outros pontos-de-encontro inevitáveis para milhares e milhares de jovens, que assim fazem muitas vezes a sua aprendizagem de vida-a-dois on the road (e que alguns prolongam em viagens pelo mundo exótico), a despeito de tais locais míticos de encontro serem hoje já metodicamente organizados em modo empresarial e com lucros palpáveis no final das contas.
Pela sua maior frequência de contacto com jovens, os professores, pais, educadores, treinadores e outro pessoal de acompanhamento ou intervenção junto desse meio social têm possibilidades de diálogo que lhes permitem captar a especificidade dos seus discursos, falares e modos de pensar. Por exemplo, além de tiques de expressão como “cena” ou “bué”, reconhecerão que a palavra inglesa fun é, universalmente, a forma mais apropriada que eles encontram para traduzir uma sensação de agrado ou satisfação perante uma circunstância ou um objecto inusitado. Não é que a coisa não possa merecer o qualificativo de “engraçado”; mas sim porque não o sabem exprimir de outra maneira, menos estandardizada ou mais rica de sentidos!
Habituados desde cedo a “pesquisar” (na Internet), os jovens e adolescentes são pressionados pelos mil e um estímulos sensoriais e expressivos que lhes vêm do mundo dos adultos para serem “criativos” (e a muitos descobrem mesmo talentos de “criadores”) no lugar onde antigamente se cultivavam as virtudes do trabalho, da perseverança e das merecidas recompensas, mas a posteriori. É a parte nefasta do actual discurso dominante sobre a “inovação”, que é importante na economia e nas atitudes sociais (versus a conhecida resistência-à-mudança), mas que leva frequentemente a frustrações ou parvoíce. É, por exemplo, o que podemos constatar com múltiplos aprendizes de repórter que, em vez de relatos objectivos e em português escorreito, se aventuram a debitar prosas pretensamente literárias.
Muitos jovens romanticizam também as suas vivências e as relações com os próximos segundo os modelos teatralizados que aprendem nas telenovelas e nos filmes, quase sempre com uma forte dose de psicologismo, de afirmação pessoal (ou pelo contrário, de vitimização ou baixa auto-estima), sexo e algum potencial de violência.
Falámos até aqui de pessoas normais. Porém, em muitos casos, o profano fica na dúvida se um determinado discurso, comportamento ou atitude é apenas algo de coerente dentro deste “caldo de cultura” ou se já se situará na esfera do patológico, a reclamar um seguimento e olho clínico perspicaz por parte de um especialista bem treinado.
Este facto devia alertar-nos para a evidenciação dos fenómenos de individualismo, fruição, hedonismo, prazer, imediatismo e fusão social típicos desta cultura urbana, os quais, geralmente, só descortinamos quando ocorrem perturbações sociais mais graves, tais como acidentes mortais, revoltas ou comportamentos de massas ululantes. Nestas alturas sobrevém a repressão policial ou então as emoções colectivas de condoimento ou reprovação. Mas mais difícil será encontrar remédios para atalhar preventivamente e controlar melhor os processos de onde se originam os referidos fenómenos, a benefício de maior racionalidade e conhecimento interiorizados pelos próprios indivíduos. Os que o tentam são amiúde apodados de moralistas e desvalorizados pelo relativismo cultural dominante no pensamento culto de hoje.
Porém, o que está em jogo é, verdadeiramente, a autonomia de cada ser humano, na combinação mais livre (quer dizer: própria), genuína e frutuosa que ele consiga realizar entre a sua natureza biológica, a sua racionalidade (que o distingue dos outros animais) e a sua identidade social.
JF / 15.Ago.2013

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