sábado, 23 de maio de 2015

Pequeno resumo do caminho que antecedeu a nossa Modernidade

O império romano estrutura a bacia mediterrânica e a Europa durante mais de cinco séculos, aproveitando parte da herança cultural e militar dos gregos e sucedendo aos antigos impérios do Egipto, dos persas e do grande Alexandre (300 AC). A civilização romana organiza, racionaliza e mostra-se capaz de gerir empreendimentos de grande escala, mais do que inventa ou descobre novos domínios: isso acontece na “arte de governar”, no direito, na cobrança do imposto, na guerra, na organização urbana, no aproveitamento do trabalho escravo, no comércio, na agricultura, na exploração mineira ou no transporte, com o latim da colonização a ter uma influência matricial sobre boa parte das futuras línguas europeias. Foi assim que a “república imperial” estendeu a sua ordem política e fez provar o fio da sua espada aos povos do Mediterrâneo oriental, aos cartaginenses do norte de África, aos celtas e iberos das províncias hispânicas, às tribos da Gália e da Germânia, e enfim aos habitantes da ilha de Inglaterra.
Os principais tribunos de Roma (Pompeu, Caio Júlio César, Bruto, Octaviano César Augusto, Marco António) são aproximadamente contemporâneos de Cristo, o judeu dissidente da Palestina que esteve na origem de uma nova religião monoteísta, a qual veio perturbar a pax romana e a espera hebraica “do Messias” (salvador): de facto, as seitas cristãs iniciais (algumas seguidamente condenadas como heréticas), a selecção dos Evangelhos feita pelo santo mártir Irineu, a insurreição na Judeia e consequente destruição pelos romanos do Templo de Jerusalém (70 DC) ou a dispersão dos judeus pela diáspora no mundo ocidental podem também ser lidas neste contexto.
As lutas e guerras civis, a difícil defesa das fronteiras longínquas e a cupidez decadente dos patrícios romanos enfraqueceram inevitavelmente a unidade do império. Após a aceitação do cristianismo pelo imperador Constantino (313), o apoio deste à sua institucionalização pelo concílio de Niceia (325) e finalmente a sua adopção como religião oficial do Estado por Teodósio (379), dá-se a divisão dos dois impérios romanos em 395 (Oriente e Ocidente) – desta partilha resultando também a divisão entre as igrejas romana e ortodoxa – seguindo-se a queda de Roma (476) face às hordas de bárbaros, vindos do norte da Europa e da Ásia. Na zona germânica, os reis guerreiros são então electivos e não sucessórios. O rei Teodorico, visigodo e já cristão, reina em Itália cerca de 500 e o papa Gregório Magno (o dos cânticos, mas não o do calendário, que é um milénio posterior) pontifica em Roma cerca de 600, tornando-se o primeiro chefe deste estado religioso cristão.
Depois da fundação do islamismo por Maomé (570-632), a expansão desta nova religião pelo Médio-Oriente e norte de África é vertiginosa e a língua arábica, progredindo ao mesmo tempo que o Corão, serve de poderoso agente de unificação cultural. A invasão da Ibéria pelos muçulmanos começou em 711, com os visigodos cristãos a refugiarem-se nas Astúrias e a resistirem militarmente (com a mítica vitória de Pelágio em Covadonga) e também espiritualmente (Oviedo, Compostela). Mas a progressão árabe na Europa é travada em Poitiers pelo gaulês Charles Martel em 732. Estabilizada a situação na península (Al-Andaluz, califado de Córdova, alguma tolerância religiosa), o Islão vai no entanto perdendo terreno face à “reconquista” (tomada de Toledo, cavaleiros cristãos como El Cid em Valência, burguinheses em Lião, etc.), sofrendo nova derrota militar importante em Navas de Tolosa (Córdova), em 1212. Mas o domínio islâmico na península veio acrescentar às estradas e urbes romanas a riqueza da sua arquitectura e outras artes, o progresso da sua ciência e a eficiência da sua agricultura mediterrânica – agora confrontadas com o ascetismo religioso das ordens de cavalaria, a igreja-fortaleza românica e o predomínio da madeira, da pedra, do fogo e do ferro cristãos.   
O ano mil dá origem a uma explosão de fundamentalismos, cujos promotores são muitas vezes combatidos como hereges ou condenados à fogueira por bruxaria pelos ministros do poder espiritual e temporal de Roma. Heréticos são igualmente os cátaros albigenses, no sul da França, esmagados militarmente no Séc. XIII. Por essas épocas, em Bizâncio, padres conciliares discutem teologia (as mulheres têm alma? o sexo dos anjos?) e os missionários Cirilo e Metódio começam a cristianização da Rússia, criando um alfabeto (cirílico, em vez dos textos evangélicos em grego bizantino) que o príncipe Vladimir, de Kiev, proclamou como religião oficial do seu estado em 988.
A Iª cruzada sai do concílio de Clermont de 1096, e conquista Jerusalém aos árabes em 1099, de modo sangrento. O apogeu das ordens militares cristãs dura dois séculos (XII e XIII) mas acaba mal, com a perseguição aos Templários em França em 1307; por sua vez, os Hospitaleiros (S. João do Hospital) são forçados a recuar da Terra Santa para Rhodes em 1310 e para Malta em 1530, tornando-se Ordem (mais tarde, soberana) de Malta, como meio de escapar àqueles maus ventos, enquanto outras ordens foram integradas nas casas reinantes, como aconteceu aos Templários portugueses, tornados Ordem de Cristo, ou aos espanhóis, doravante Ordem de Calatrava. A dos Cavaleiros Teutónicos também não dura muito tempo. No plano mítico, são desta época as lendas de cavalaria, místicas: Artur e outros (Vautan, Monserrat), o graal, a lança.
Em 1115, Saint Bernard funda em Clairvaux a ordem conventual de Cister, reformando a velha regra monacal dos Beneditinos (“ora e labora”, do séc. VI), de que Cluny se teria afastado; da mesma época são as ordens dos Carmelitas, dos Cartuxos, dos mendicantes Franciscanos (e seus derivados Capuchinhos e Clarissas), dos Dominicanos e Crúzios, seguidos, mais tarde, já no séc. XV, pelos Jesuítas: os apóstolos iniciais (S. Paulo, etc.) e os doutores da Igreja (S. Agostinho ou S. Tomás de Aquino, que deu uma base filosófica aristotélica ao cristianismo) tinham encontrado bons seguidores neste clero secular das ordens religiosas, ora viradas para a penitência e o recolhimento, ora mais em contacto com as misérias do mundo. As belíssimas catedrais do gótico europeu nascem desta conjugação de espiritualidade, crenças bem enraizadas no povoléu, capacidade da mão-de-obra artesanal, saber dos mestres-arquitectos e poderio económico-militar do senhorio feudal. 
Mas a tendência à concentração política existe e as monarquias dinásticas prolongam-se. A casa de França compreende os reinados medievais dos francos e merovíngeos (iniciados por Claudion no séc. V), dos carolíngeos (Pépin-le-Brève, 751; Carlos Magno, chefe do sacro-império romano-germânico, abrangendo saxões, teutónicos, francos e italianos, 800), a dos capetos (Hughes Capet, rei, 987; S. Luis, rei, 1226) e dos Valois (François I, no séc. XV). No tempo dos guerreiros marítimos do norte (vikings, etc.), os normandos instalam-se em França em 820; e Guilherme da Normandia, vencedor em Hastings, é coroado rei de Inglaterra em 1066. No séc. XII é Iléanore d’Aquitaine que se torna rainha de Inglaterra, levando para esse reino insular aquele grande ducado (mais de metade da França moderna), e desencadeando-se então a guerra-dos-cem-anos, de 1337 a 1435, entre franceses e ingleses (batalhas de Crecy, em 1346, e Azincourt, 1415; morte de Jeanne d’Arc, 1431). Em França, os ducados (Bretagne, Aquitaine, Bourgogne, Berry, etc.) têm grande poder político face ao rei, até serem realmente integrados no reino nos séc. XV e XVI.
No norte europeu, sob os monarcas e senhores dos territórios da Suécia, Noruega, Dinamarca ou Alemanha, vai-se desenvolvendo e consolidando o poder económico das cidades e das burguesias da Liga Hanseática, com base no comércio marítimo e em controlado risco financeiro. Entre os séc. XII e XIV, Lubeck articula-se com Dantzig, Novgorod, Bergen, Londres e Bruges e chega a reunir meios de defesa dessa rede comercial, quando os acordos com os poderes feudais não são suficientes. 
A Confederação Helvética é fundada em 1291. Em Itália, é proclamada a república em Milão em 1447, depois de um longo domínio dos monarcas lombardos e antes do estabelecimento do poder dos Medici e dos Borgias. O mesmo acontece em Génova e em Veneza, típicas cidades onde o Renascimento floresce, redescobrindo e reinventando as artes clássicas, estreitando o espaço da crença religiosa e iniciando a aventura do conhecimento científico, com base económica no lucro comercial dos produtos exóticos orientais e das manufacturas europeias, continente onde a servidão agrícola se ia reduzindo cada vez mais. Mas outros acontecimentos são determinantes. A Universidade de Paris é fundada em 1120 pela Igreja, tal como as outras da mesma época (Bolonha, Oxford, Coimbra, etc.), mas da universidade sai um saber cada vez mais elaborado, e nem sempre obediente à hierarquia. A Magna Carta dos ingleses data de 1215, logo seguida de um parlamento onde representantes do povo (burguês) procuram controlar, pelos recursos fiscais e pelo conteúdo de certas leis, o poder quase ilimitado dos reis. Mas deve notar-se que o parlamento da Islândia é mais antigo, do séc. X; e que o primeiro estado europeu definitivamente instalado num território é talvez o do pequeno Portugal, desde o séc. XII, com um governo monárquico, uma só língua e uma religião dominante (embora a monarquia húngara seja mais antiga). Em contrapartida, o poder temporal dos papas vai vacilando, ao sabor dos arranjos da diplomacia e dos conflitos dinásticos ou políticos, como aconteceu perante o facto inédito de Clemente V instalar o papado em Avinhão em 1309 (que dura até 1377).
Entretanto, no oriente, Gengis Khan toma Pequim em 1215 e Bagdad em 1258, alargando ao máximo o grande império mongol (quando Marco Pólo faz as suas viagens), mas falha a invasão contra o Japão, onde Kyoto é capital desde 784 e domina a aristocracia guerreira dos samurai. Na China, muito fechada sobre si própria (a Grande Muralha), a dinastia Ming chega ao poder imperial em 1368 e vai aperfeiçoar a sua burocracia estatal e promover grandes avanços na astronomia, navegação, química (pólvora, papel) e agricultura, mas explorando um campesinato miserável. Nesta grande região asiática, o budismo (que vem do séc. VI AC) tinha-se espalhado progressivamente pela China e Japão (500 DC), menos pela Índia onde o vedismo e o hinduísmo estão bem enraizados, mas onde contudo penetra o islamismo, que chegará até aos grandes arquipélagos da Australásia. Contudo, o império persa subsiste, até ser, também ele, islamizado pelo chiísmo. Da África negra sabe-se pouco (por exemplo, sobre os antigos reinos do Monomotapa, actual Zimbabué, ou do Gana – e onde ficava a misteriosa rainha de Sabá?), mas é então um continente mergulhado na pré-história, com economias de subsistência local, ocasionais guerras inter-tribais e algumas práticas de escravatura, que subsistem nas zonas onde o Islão vai progressivamente penetrando.
Em Portugal, o fim da Idade Média chega com a crise dinástica de 1383-85, o apoio do povo de Lisboa ao Mestre-de-Aviz, a aliança com o rei inglês, a acção do condestável-santo e a vitória militar contra o invasor castelhano. Assegurada que estava a independência do reino e a sua legitimação directa pela Santa-Sé, começa a “expansão”, concretizada pela tomada de Ceuta (1415) e outras praças de Marrocos, e as navegações atlânticas para oeste e para sul. Ao longo deste século, a descoberta das ilhas atlânticas (Madeira, 1418; Açores, 1427), a chegada ao golfo da Guiné e ao rio Zaire (Diogo Cão, 1483) são passos que antecedem os feitos que tornaram conhecidos os navegadores portugueses: a dobragem do Cabo da Boa-Esperança (Bartolomeu Dias, 1487), a chegada à Índia (Gama, 1498) e a descoberta do Brasil (Cabral, 1500), seguindo-se a expansão militar-comercial no Índico e mares da China e do Japão durante o séc. XVI.
Porém, a concorrência ibérica não demora: realizada a união real de Aragão com Lião-e-Castela, reenviados os últimos reis árabes para fora da península e definindo idênticos objectivos estratégicos de acréscimo do poder já detido (a saber: coesão interna e ausência de ameaças externas directas; fome de enriquecimento e protagonismo de burgueses e aristocratas; vontade de contornar o comércio mediterrânico-árabe do oriente; e incentivo da Igreja para “conquistar as almas perdidas para o povo de Deus”) os espanhóis lançam-se na peugada dos portugueses à descoberta e à conquista do mundo longínquo: a América (Colombo, 1492), a circum-navegação de Magalhães/Elcano e, sobretudo, os conquistadores: Cortés no México, 1519; Pizarro no Perú, 1532; Almagro no Chile, 1535 – que destroem as antigas civilizações (aztecas, incas); e chegam também à Califórnia em meados desse século. É o período de ouro da casa de Áustria, com Carlos V, imperador da Áustria, Holanda e Espanha (em guerra com a França), a quem sucede em 1556 Filipe II (e em 1580 também rei de Portugal), que não consegue evitar a separação dos holandeses em 1581. A descoberta das grandes rotas marítimas e a sua abertura à navegação comercial, a conquista guerreira e a evangelização conjugaram-se assim durante os séc. XV e XVI nesta primeira forma de fechamento do mundo, de “globalização”, por obra de portugueses e espanhóis, de que o tratado de Tordesilhas (1494) foi o símbolo mais eloquente.
Mas rapidamente se seguem também o francês Jacques Cartier no Canadá (1534) e os peregrinos protestantes ingleses do Mayflower na América do norte (1620). Os holandeses, por seu turno, libertando-se do domínio dos espanhóis e aproveitando da derrota destes pelos ingleses, no mar, tornam-se no séc. XVII uma grande potência económica marítima com possessões na América central, sul de África e sobretudo na Australásia, já cada vez mais em compita com a Inglaterra.
Neste período mediano do milénio, a literatura enriquece-se e universaliza-se (Camões, Cervantes, Shakespeare), a invenção da imprensa (Guttemberg) quebra o monopólio eclesiástico do escrito, o grande conhecimento humaniza-se (Erasmo, Galileu, Da Vinci, Miguel Angelo) e progride na geografia, ciências naturais, arquitectura e artes plásticas, com as cidades e príncipes italianos a beneficiarem ao máximo destes progressos.
Entretanto, os turcos otomanos expandem-se no sueste europeu: haviam vencido os sérvios no Kosovo Polje em 1389 e tomado Constantinopla em 1453, acabando com o império romano do oriente (bizantino) que durara um milénio. Suliman-o-Magnífico, sultão turco (1520-1566), torna-se também Califa do Islão (ramo chiíta); alarga e consolida o seu império (a “Grande Porta”), ameaçando a cristandade e também o comércio marítimo entre a bacia mediterrânica e o oriente. Até finais do séc. XIX, os turcos não deixarão de incomodar os países cristãos, alastrando o seu domínio sobre a Europa do sul e oriental e chegando a cercar Viena (1683), enquanto aqueles se mobilizam de tempos a tempos para os guerrear no Mediterrâneo e nos Balcãs (cerco resistente de Malta em 1565; batalhas navais vitoriosas de Lepanto, 1571, e Matapan, 1717; confrontos em Belgrado e no Kosovo, nesta mesma época).
Mas o século de “quinhentos” é também o da crise religiosa europeia: depois de muitas peripécias, o rei Henrique VIII de Inglaterra consuma em 1534 o cisma anglicano; em 1530 o padre Lutero rebela-se contra o papa; o mesmo fazendo Calvino em 1541. Em 1545-63, o concílio de Trento lança a contra-reforma, do catolicismo contra os protestantes, moderando a ostentação papal mas também armando como nunca o braço impiedoso do tribunal do Santo Ofício. Em 1562 começam guerras religiosas em França (1572, massacre de Saint Barthélemy), com o édito de Nantes a apaziguar os ódios em 1598. Mas parte da Alemanha, da Flandres e os países nórdicos aderem maioritariamente ao protestantismo, com a Suécia a ter um grande protagonismo político no tempo do rei Gustavo-Adolfo (1611-1632). Por seu lado, os judeus da diáspora subsistem como e onde podem: o extremismo católico, sobretudo nos países ibéricos, leva-os a práticas de “submersão” securitária (“cristãos-novos”, rituais escondidos, etc.) e a emigrações mais longínquas, no Mediterrâneo, Europa protestante, central e do leste, onde, contudo, virão a ser mais tarde objecto de novas discriminações e, ocasionalmente, de pogromes.
Na Rússia, a servidão dos camponeses permanecerá longamente submetida ao poder de uma aristocracia proprietária que só o poder brutal dos Czares (Ivan, 1547) consegue controlar. Mas o império de Moscovo (dos Romanof, a partir de 1613) vai-se alargando até ao extremo-oriente, e para sul, para as regiões islamizadas do Caúcaso. Mas vai também modernizar-se (fundação da cidade de S. Petersburgo) e ocidentalizar-se (corte faustosa, artes e ciências, exército e marinha) com Pedro-o-Grande (1689-1725) e Catarina da Rússia (1762-1796), pesando doravante no xadrez político das nações europeias.
Na Grã-Bretanha prepara-se uma ascensão imparável, com o poder “de mão-de-ferro” da rainha Isabel I (1558), a derrota da “invencível armada” espanhola em 1588 e a apropriação simultânea, pelos Stuarts, das coroas de Inglaterra e da Escócia (1603). Porém, o séc. XVII é ainda um século perdido, por causa de problemas intestinos: uma guerra civil (1642), a ascensão de Cromwell e uma sangrenta experiência republicana (1653-1658), que todavia se reequilibra com o Bill of Rights (1689), que oferece garantias de cidadania a uma burguesia empreendedora e ambiciosa. Por outro lado, os ingleses, depois de dominarem a revolta irlandesa de 1641, vencem os católicos no Ulster em 1690, dominando desde então esta ilha, ao mesmo tempo que se impõem no mar (e em terra, em várias partes do mundo, incluindo ex-possessões ibéricas) aos holandeses da casa de Orange e ao domínio económico da sua rica Companhia das Índias.
Por esta altura, em que a “riqueza das nações” vem sobretudo do grande comércio global (especiarias e artefactos do oriente, madeiras de África, prata e ouro das Américas) e de uma agricultura já em grande escala (algodão, cereais, etc.), organiza-se também o impiedoso negócio da escravatura dos africanos através do Atlântico, que fornecerá os contingentes de mão-de-obra necessários à valorização das potencialidades económicas do “novo mundo” e se manterá vivaz por dois séculos. Mas, sobretudo, começam-se a lançar-se as bases do que será a nossa Modernidade: por um lado, com um pensamento filosófico utilitarista que reconhece a importância da riqueza material (vindo desembocar na escola económica inglesa) e a especificidade da razão (Descartes), ao mesmo tempo que católicos pregam a igualdade humana da “criação divina” (Las Casas ou António Vieira); por outro lado, começa o desenvolvimento teórico da química (Lavoisier, etc.) e da física (Newton), com aplicações na mecânica, na óptica e na astronomia; por outra banda ainda, o saber prático aperfeiçoa-se na produção em série manufactureira e no progresso técnico das fortificações, da artilharia e dos navios-de-guerra; e as artes encontram executantes e criadores de excelência na pintura (escola holandesa) e na música (Bach e outros), talvez um pouco menos na arquitectura do maneirismo e do barroco.
Entretanto, a França reforça o seu poder político centralizado com a entronização de Henrique IV em 1589, de Luís XIII em 1610 e a acção governativa de ministros como o cardeal Richelieu (1624-42), Mazarin (1643-61) e Colbert (1661-69), apesar de conhecerem a agitação camponesa da “fronde” em 1649-50 e o recuo da revogação do édito de Nantes em 1685. A guerra-dos-trinta-anos (opondo católicos e protestantes; franceses, austríacos, alemães e suecos) incendeia de novo a Europa de 1618 a 1648, mas o tratado de Westfália que lhe põe fim inaugura uma nova época, com o reconhecimento das “entidades nacionais”, que começam a sobrepor-se às querelas dinásticas e aos conflitos religiosos. No entanto, os franceses manter-se-ão interventivos fora das suas fronteiras, participando em 1702-14 na guerra-de-sucessão-de-Espanha e em 1756-63 na guerra-dos-sete-anos (contra a Áustria), e assistindo com temor ao engrandecimento da Prússia do rei Frederico II (1740-86).
O séc. XVIII é, assim, um século em que, sobretudo, voltam a defrontar-se gauleses e britânicos, mas agora num espaço geográfico mais alargado, sob a forma de um poder que se mantém essencialmente continental (caso da França) contra um poder global marítimo (da Inglaterra): os franceses instalam-se na Luisiana em 1682, embora em 1713 a guerra no norte do continente americano dê o Canadá aos ingleses; e vejam-se as viagens de La Pérouse e de James Cook pelos oceanos Pacífico e Índico.
Com a mecânica a desenvolver a indústria (minas de carvão e ferro, metalurgia, têxtil, etc.) e o transporte marítimo a ser o elemento-chave do comércio mundial, é lógico que o sistema bancário e segurador tenha tido oportunidades para prosperar, destacando-se neste a capacidade investidora, trabalhadora e lucrativa de judeus e protestantes, face aos países católicos e muçulmanos, mais manietados pelo contacto “impuro” do dinheiro. O centro de gravidade do progresso mundial vai-se assim transferindo, acentuadamente, para as regiões do norte da Europa, com a própria França a sofrer dessa divisão. Mas é também neste país que uma nova geração de pensadores aparece apregoando os ideais da liberdade e da razão (Voltaire, Rousseau, os “enciclopedistas”): é a filosofia das luzes, que traz no bojo a ideia republicana de nação e os fervores de uma Revolução transformadora da humanidade. O “antigo regime”, com a monarquia absoluta de direito divino e a “sociedade de ordens” (clero, nobreza e povo) e de instituições (militares, académicas, religiosas, etc.) constituem-se como os novos inimigos a abater, para que possa reinar uma sociedade de cidadãos, livres e iguais, com um governo do povo, separação dos grandes poderes do Estado (legislativo, executivo, judicial) e a assunção do “império da lei”.
De certa forma, as convulsões inglesas do séc. XVII realizam já parte deste programa político. Mas o processo de independência das colónias inglesas da América do norte (1776) e a “grande Revolução Francesa” (iniciada em 1789) é que marcarão mais decisivamente o destino das nações do mundo moderno. Esta última experiência vem mesmo a constituir-se como o fenómeno político, por excelência, de uma rápida mudança societal e da sua inversão fundamental. Depois das exaltações populares do “derrube da tirania e da vitória da liberdade”, assiste-se ao cerco externo da exaltação revolucionária (pela “santa aliança” dos países vizinhos poderosos), ao “terror vermelho”, à fazedura das novas leis e instituições, à ascensão de um intrépido jovem general (Napoleão Bonaparte), à exibição do seu génio guerreiro e estratégico, até se instalar o domínio pessoal desta personagem, não somente como novo imperador-dos-franceses, mas também como senhor da Europa. A sua glória é curta (1799-1815), mas a influência das ideias que ajudou a semear foi enorme.
Com algum toque de ironia, a coligação de nações conservadoras que derrotou o bonapartismo acabou por ajudar a promover as novas ideias revolucionárias: o congresso de Viena (1814-15) declarou a dignidade per se da pessoa humana e, por consequência, o fim da escravatura e da servidão; o direito das nações a decidirem do seu próprio destino; algumas regras de convivência inter-estatal (rios internacionais e mesmo remetendo a guerra para um uso de excepcionalidade, face à possibilidade de regulação pacífica dos conflitos por meios diplomáticos, pela negociação ou a arbitragem); e mesmo a constitucionalização do poder político nacional.
Assim, quebradas as peias dos restos de feudalismo ainda existentes (fixação à terra, comunitarismos, etc.), “nacionalizando” as instituições estatais mais decisivas (exército, justiça, impostos) e beneficiando do usufruto de liberdades já irreprimíveis como as de imprensa, associação, iniciativa económica, individualização (“um homem, um voto”), etc., o mundo moderno pôde dedicar-se em pleno ao crescimento das suas indústrias mecânicas, à aceleração das trocas comerciais, ao desabrochar da ciência e da criatividade artística, à grande concentração urbana, à exploração colonial moderna; em suma, ao “progresso” (que lhe haveria de trazer, em troca, a irrupção das ideias e dos movimentos socialistas, os novos conflitos armados inter-nacionalistas e, mais a prazo, regimes totalitários inimagináveis, a revolta dos povos colonizados, a emancipação feminina e a degradação dos ambientes naturais).
JF / 22.Mai.2015

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Indivíduo, comunidade e sociedade, num espaço mundializado

Estes conceitos aprendem-se com o B-A-BA da sociologia mas podem ser úteis para a compreensão do que vivemos e observamos no nosso quotidiano imediato e do que nos chega por via dos media.
De acordo com o que podemos interpretar a partir da leitura de autores oitocentistas clássicos como Tönnies ou Durkheim, as comunidades são modos de funcionamento dos agrupamentos humanos extensos onde cada pessoa se define, antes de tudo o mais, pelo sentimento de pertença a essa comunidade, num laço que é bi-unívoco. Isto é: manifestando-se no indivíduo de um modo em que este só é capaz de se imaginar como fazendo parte desse conjunto; e no “espírito colectivo” partilhado pelo grupo, no sentido em que se considera que todos os seus membros individuais lhe estão indissoluvelmente ligados, que só a morte ou o banimento podem quebrar (aquela perdurando porém como recordação; este, só excepcionalmente, por gravíssimo crime ou renegação fundamental).
Desde sempre se associou a comunidade a formas de organização e vivência social muito integradas, como as ditas “tradicionais”, de base camponesa ou aldeã, ou então as tribais que puderam subsistir longamente nos continentes americano ou africano. Erradamente, um certo romantismo persistente tendeu a ver nas comunidades um modelo ideal de colectividade humana, ou a confundi-las com a melhor concretização do valor da igualdade (uma espécie de Paradise Lost, que os Hippies pretenderam ressuscitar). Na verdade, é o mesmo tipo de relacionamento social que podemos encontrar ainda hoje nas camorras e mafias italianas, nas etnias ciganas, em certos movimentos religiosos, em linhagens familiares quase-impenetráveis, nas identidades mais “fanáticas” de adeptos futebolísticos ou mesmo em partidos políticos ideologicamente muito marcados. É certo que, em determinados momentos especiais, a comunidade pode entrar em “ponto de fusão”, onde cada um é igual ao outro, numa fraternidade difícil de se encontrar noutras situações. Mas isso é o excepcional, que ocorre na festa ou na celebração, ou ainda na dor profunda. Na realidade, o sentido de pertença comunitária é compatível tanto com estruturas hierarquizadas (em que o poder social está muito desigualmente distribuído entre os indivíduos), como com dinâmicas de funcionamento mais fluidas, aleatórias ou igualitárias. São duas coisas relativamente independentes.
Longe destas formas de “solidariedade mecânica”, Durkheim entreviu na sociedade industrial, mercantil, racional e expansiva que se estava desenvolvendo sob os seus olhos um modelo “societário” diferente, feito de contratos e leis formais elaboradas intencionalmente, de “divisão-técnica-e-social-do-trabalho” muito avançada e tendencialmente universalizante, de instituições especializadas e grande interdependência geral. A “solidariedade orgânica” que regeria tal conjunto, muito mais vasto e complexo do que o anterior, deveria permitir melhores condições de desenvolvimento pessoal, de abundância material e de uma “administração das coisas” de modo desapaixonado e mais eficiente. Em parte, Durkheim viu certeiro e antecipou o nosso mundo de hoje. Mas, em grande parte também falhou redondamente, desde logo ao descurar os efeitos destrutivos da concorrência (que sempre existira entre poderes, mas agora numa “escala” infinitamente maior), sobretudo da concorrência entre Estados nacionais e entre os conglomerados de interesses económico-financeiros. Do primeiro tipo de confrontos originou-se a moderna colonização da África, a corrida às matérias-primas e aos armamentos, as ideologias “de massas” e, por fim, as guerras mundiais. Do segundo dinamismo, a obsolescência dos saberes artesanais, uma rápida “proletarização” do trabalho, a asfixia das pequenas economias e o crescimento exponencial da urbanização, com os problemas inesperados que esta veio trazer e ninguém previra. Mas também é verdade que, a-par-e-passo destes resultados problemáticos, cresceram a escolarização, a ciência, a cultura e o divertimento, num grau inimaginável para qualquer pensador ousado dessas épocas.        
O mundo que conhecemos no século XX foi, pois, a “sociedade” conceptualizada por Tönnies ou Durkheim e que, na leitura apressada de muitos, significaria o desaparecimento quase completo das “comunidades”. Na realidade, talvez tenha sido ela que permitiu a irrupção do “individualismo”, fenómeno do qual a ciência sociológica contemporânea teve alguma dificuldade em dar conta, a não ser por via de autores mais polémicos como G. H. Mead, Elias, Boudon ou Giddens. Uma coisa era a aspiração antiga (expressa por poetas ou dramaturgos) a que os filósofos e economistas clássicos deram a forma de teorias e que os juristas modernos codificaram sob o epíteto de “direitos”. Outra coisa foi a realidade do “indivíduo-massa” das cidades e dos países industrializados, ou mais tarde das gigantescas metrópoles cercadas de bidonvilles, favelas ou musseques. O individualismo das elites (nomeadamente o das elites culturais, artísticas e científicas) pôde estender-se sem grandes dificuldades a uma classe crescente de jovens escolarizados e foi potenciado pelos processos mais recentes da globalização económica e comunicativa. Mas para a grande massa dos “deserdados do progresso”, o desenraizamento provocado pela mera concentração urbana e pelo despojamento de qualquer património próprio (sequer da posse de um ofício, para já não falar de um domínio particular sobre a natureza: do agricultor, do caçador, do pescador…) acabou por conduzir a uma tal fragilização do indivíduo que, em dado momento, se tornou atractivo para cada qual, o apelo ou a invenção de uma forma de integração comunitária, fosse ela nova ou redescoberta.
Os comportamentos inter-individuais que hoje se espraiam no espaço tecnológico das “redes sociais”, os sinais de violência privada que os media catapultam diariamente urbi et orbi, o recrutamento de jovens para movimentos sectários radicais (sejam eles políticos ou religiosos) ou as formas do “novo terrorismo” (ubíquas ou “territoriais”, mas sempre surpreendentes e espectaculares) são, todos eles, fruto desses desajustamentos entre indivíduo e sociedade, sendo que agora esta se expandiu para os seus limites geográficos máximos (o que significa também o máximo de variedade possível de povos e dos artefactos por eles gerados). Perante tal distensão, poucas (relativamente) são as pessoas a quem o saber e a cultura permitem equacionar escolhas racionais e razoáveis para a orientação das suas vidas e a manutenção de relações com terceiros. A maioria socorre-se dos processos de integração que estão ao seu alcance e das instituições que conhecem e lhes dão alguma segurança e previsibilidade (família, trabalho, rede de amigos, normativos legais, associações de interesses, etc.). Mas uma outra minoria – especialmente fragilizada por qualquer ordem de razão – apenas encontra como saída plausível para as suas dificuldades (ou para as suas angústias existenciais) o “reencontro” (de supostos iguais) e o acolhimento dentro de uma comunidade, com os respectivos símbolos, rituais e os tais mecanismos próprios de uma solidariedade “mecânica ou automática”. A qual, no limite, aceita mesmo no seu seio o abrandamento dos controlos sobre as pulsões-de-morte ou até potencia o seu desencadeamento.
A Islândia, a Suíça e a Holanda são hoje, possivelmente, os países mais libertários que existem porque conseguem conjugar da melhor maneira os espaços do indivíduo, da comunidade e da sociedade, dentro de um quadro de liberdade, ordem e responsabilidade. Mas estão longe de ser perfeitos: são todos pequenos países (a Islândia é como a Madeira), o que os livra de exigentes compromissos globais; podem atrair abundância de capitais apátridas; e têm populações mais instruídas do que a média – o que não os impede de poderem ser desinteressados pela sorte dos povos mais desgraçados ou verem surgir em sua casa partidos xenófobos. Dispor de uma democracia participada e de representantes políticos honestos e diligentes é uma (excelente) condição. Não uma garantia de boas orientações. Mas induz provavelmente na sua população um sentimento de auto-estima e poder de realização que falta em quase todos os outros.  
A individualidade foi uma conquista fundamental da civilização humana. Possam agora as sociedades de hoje gerir melhor os seus equilíbrios globais e aproveitar das comunidades subsistentes – como, por exemplo, as communities de proximidade residencial anglo-saxónicas, e sobretudo norte-americanas – o melhor que elas possam conter de elementos identitários de cooperação e integração das diferenças, em vez do refúgio em comunidades fechadas, exclusivistas e supostamente portadoras de uma redenção que – como muito bem analisou António Costa Silva no Expresso de 3.Abr.2015 – só pode ser bárbara ou medieval.   
JF / 8.Mai.2015
       

Arquivo do blogue