quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Dúvidas e interrogações

Dois dos meus amigos mais próximos discutiam há dias acerca da predominância na comunicação social das “gordas” e dos comentadores “neo-liberais” versus “à esquerda” – isto, a propósito de uma das habituais colunas que um outro amigo comum escrevera, na sua função de provedor-do-leitor de um dos nossos jornais diários. Não intervim neste diálogo “electrónico”. Em parte, porque me sentia dividido. Acessoriamente também porque, a usar esse media, gastaria porventura várias páginas para explicar em que pontos concordava com um e discordava do outro, onde me revia nas palavras deste último e me afastava do primeiro. E o debate fechou-se (ou adiou-se) rapidamente.
Pensando um pouco mais no caso, sobreveio-me a lembrança de que ainda há dias me sentira na mesma hesitação perante a instante questão da saída ou não do Reino Unido da nossa União Europeia ou, com muito mais acutilância, sobre o problema da eutanásia, ou ainda sobre o drama dos refugiados e migrantes islâmicos que acorrem à Europa, ou ainda sobre o combate ao terrorismo no Próximo-Oriente, ou ainda… Enfim, é quase toda a actualidade que me coloca questões cruciais e urgentes para as quais não tenho resposta clara. Não sendo religioso, não tenho nenhum catecismo ou director espiritual que me guie. Não sendo apaniguado de nenhum partido político (ou mesmo associado de um sindicato), não tenho qualquer posição colectiva à qual que me encostar. Não sendo actualmente membro de qualquer clube ou círculo de discussão onde possa argumentar ou colher bons argumentos, está-me vedada essa ajuda para construir opiniões mais bem fundamentadas. Dos colegas de minha actividade e dos intelectuais, já eu conheço o bastante para saber que em nada me deverão elucidar sobre estes novos problemas. Resta-me o que vejo, ouço e leio na comunicação social, confrontado com o saldo do capital de conhecimentos que acumulei, dos livros e da vida. Mas esse manancial informativo levanta-me tantos problemas pela matéria substantiva que divulga como pelo modo e tratamento mediático com que nos é servido.
Não me causa qualquer angústia esta solidão interpretativa, já que há muito lido com ela e julgo ser o preço a pagar pela liberdade de consciência que o nosso mundo moderno nos proporcionou e que, por exemplo, não estava ao alcance dos meus tetra-avós. Mas também sei que isto é um “privilégio” de que só uma minoria pode beneficiar. A grande maioria das pessoas “normais” não se pode dar ao luxo de tais cogitações: não lho consentem as ingentes tarefas da sobrevivência diária; a educação que lhes moldou o carácter não permitiu que rompessem com a rede de constrangimentos afectivos e emocionais do “meio” onde, por acaso, nasceram; e a dinâmica das sociedades actuais é fortemente condicionadora dos comportamentos “de massas” das populações urbanizadas, mesmo quando lhes sugere e proporciona alternativas de afirmação da sua individualidade. (O caso das actuais “redes sociais” é bem ilustrativo disto mesmo.)
Situar-se sozinho “dentro do sistema” mas não dele “prisioneiro” não é cómodo nem fácil. Há duas ou três gerações atrás, os utopistas de então tinham a percepção de que os seus projectos de transformação social tinham alguma probabilidade de serem realizados, ainda que mínima. Competia-lhes a eles tentarem alargar essa margem de incerteza. Os seus imediatos sucessores fixaram-se talvez no imperativo moral de não traírem os sacrifícios de tantos, no passado; mais do que verem triunfar os seus ideais, aspiravam resistir e dar testemunho desse espírito de rebeldia contra as inevitabilidades do presente.
Mas hoje? Nos países-quadro desta “história ocidental”, os pobres  e os trabalhadores explorados praticamente desapareceram para dar lugar a uma classe-média algo pelintra que viu satisfeitos todos os seus anseios de consumo desafogado e alguma parte dos sonhos de ascensão e reconhecimento sociais. Mas o seu anterior lugar não ficou vazio: foi sendo ocupado por aquela fracção dos “damnés da la terre” que conseguiu migrar fisicamente para as metrópoles, safando-se do destino maioritário dos seus iguais que apenas puderam amontoar-se nos muceques, favelas e bidonvilles das suas regiões de origem, agora sob (quase sempre) o desatendimento e o desprezo dos seus novos governantes nacionais. Acresce ainda o seguinte: num mundo todo ele muito mais integrado – sobretudo pela intercomunicação e o valor económico –, é nos diferenciais existentes entre a “produtividade” dos investimentos capitalistas que se funda hoje o essencial do ganho económico. Que se cuidem os países, as regiões, as cidades, os sectores de actividade, as empresas, as profissões ou as categorias de trabalhadores menos competitivos! Os próprios “blocos continentais” (vide a União Europeia) ficam ameaçados quando não conseguem gerir eficazmente as suas diferenças internas.
Nestas circunstâncias, a esquerda conseguiu forçar o Estado a assumir um papel de redistribuidor do rendimento nacional, impondo (quando, onde e enquanto lhe foi possível) os seus princípios de universalidade nos benefícios distribuídos e com isso arriscando sempre os equilíbrios das finanças públicas. Hoje, em Portugal, é curioso que sejam o Bloco de Esquerda e o PCP a defenderem este “programa social-democrata” com a singularidade de o fazerem com os modos e o discurso típico dos protestatários do poder (que eles sempre foram), enquanto o PS o  faz com a moderação e a sinceridade de um partido (e uma corrente política) há muitas décadas adquirido às vantagens e servidões do exercício do poder em democracia e que foi evoluindo de uma posição de crítica à economia capitalista para apenas a de uma correcção dos seus efeitos socialmente mais negativos, por força da acção do Estado.                     
Por seu lado, os partidos moderados de direita, conservadores ou de influência democrata-cristã ou liberal, defendem de forma mais descomplexada a iniciativa privada e a economia de mercado, ao mesmo tempo que assumem sem reservas o modelo de alternância democrática, deixando isoladas as forças ultra-nacionalistas e autoritárias que no passado falavam em seu nome. Pode então dizer-se que partilham com a esquerda social-democrata a aceitação da economia de mercado com alguma intervenção correctora ou regulatória dos poderes públicos, mas são menos estatistas do que as esquerdas. Porém, são também tradicionalmente colocadas no campo das direitas outras variedades: forças que pareciam talvez desaparecidas mas que têm vindo a reemergir na cena política de certos países (embora não em Portugal), geralmente qualificadas de populistas,  xenófobas ou violentas; alguns nacionalismos que em certas situações podem equivaler-se aos anteriores mas, noutras, podem antes corporizar sentimentos autonomistas genuínos de nações historicamente reprimidas por poderes estatais mais vastos; e o chamado “neo-liberalismo”, filosofia económica que tem presidido à integração financeira, empresarial e dos mercados das últimas décadas, criando novas oportunidades de negócio e inovação em áreas até então à margem da economia mas também reagindo contra o excessivo estatismo que amordaça muitas sociedades, sendo que, em ambos os casos, uma parte dos actuais fenómenos de corrupção lhes está ligada. Tudo isto são muitas coisas diferentes entre si, embora com alguns fios de ligação mútua.
É um facto facilmente observável que a política portuguesa anda “crispada” e a sociedade ainda está magoada pelas restrições dos últimos anos. Mas, enquanto esta vai encontrando por si própria algumas vias “de saída” (uns saindo mesmo para o estrangeiro, outros mais empreendedores criando empresas em novos ou velhos sectores de actividade, outros ainda vacinando-se contra o discurso demagógico dos partidos…), a generalidade das formações partidárias insiste em abespinhar-se com as querelas e passa-culpas de sempre, sem quererem perceber que estão porventura a esgotar as últimas reservas de paciência e da complacência que o eleitorado lhes tem demonstrado. Veremos o que o novo Presidente da República conseguirá fazer com a sua inteligência, popularidade e capacidade de influência, a este respeito. Mas é difícil imaginar que os actuais partidos governantes (que agora são todos) cedam algo de significativo dos interesses que criaram à sombra dos poderes do Estado. E, por outro lado, da Europa só há a esperar a continuação da atitude rígida que tem tido para com “os do Sul” – não essencialmente por preconceito ou espírito de perseguição, mas porque assim lhe ditam as regras da sua sobrevivência –, a não ser que os próximos anos ainda nos tragam algo de pior, por causa de uma saída do Reino Unido, incapacidade em lidar com o afluxo maciço de populações muçulmanas, uma nova crise financeira “em grande” ou a chegada ao poder de forças anti-europeias num país central. Isto, numa época em que não se sabe como evoluirá a política externa norte-americana, mas sabe-se que os problemas no “arco islâmico” não irão solucionar-se facilmente e que a Rússia se tornará ainda mais intratável logo que a sua situação económica o permita.   
Não se nega que, nestas condições, haja, apesar de tudo, diferenças entre uma governação “de esquerda” e uma mais “amiga do capital” ou das forças socialmente mais conservadoras. Mas são apenas duas formas de gestão da “economia social de mercado” e do uso das prerrogativas governamentais. No centro da questão está a “lei de bronze” da luta pela poder – pelo desafio fascinante que, em si mesma, essa conflitualidade representa, e pelas oportunidades de ganhos que tal ocupação traz consigo (no presente ou no futuro). Isto pode não ser (ou não se chamar) corrupção mas é um fenómeno tão antigo como a ambição, a competição, a guerra ou o crime. Mas se nestas diversas áreas as sociedades humanas conseguiram já “disciplinar os instintos” e encontrar mecanismos e instituições capazes de minimamente os controlar, porquê esta dificuldade maior para com os actores que entre si disputam o poder político? Decerto que a constitucionalização deste “jogo” trouxe progresso e alguns benefícios: por isso todos achamos “bárbaro” o comportamento dos fanáticos do Daesh. Mas, mesmo não ostensivo, o antagonismo partidário traz sempre desperdício e esbanjamento de recursos; enquanto a tolerância, a negociação, a trégua e o acordo limitado conduzem geralmente a melhores resultados, transmitem mais serenidade e confiança à sociedade, e encorajam por todo o lado a procura do “bem comum”.     
Porque sociologicamente tende a haver (sobretudo em Portugal) mais proximidade entre as elites partidárias de direita e as elites económicas, o aproveitamento temporário das benesses do exercício do poder pelos políticos é talvez menos sôfrego do que acontece com o pessoal das esquerdas: limitam-se a chamar para a sua órbita político-administrativa  aqueles que conhecem e em quem depositam confiança (muitas vezes recrutados por via das redes familiares). Até porque as suas possibilidades de escolha são em menor número.
À esquerda, o campo de recrutamento de gente com boas qualificações técnicas é hoje vastíssimo e a pressão para alargar o emprego público é, por isso, bastante maior. A fundamentação das decisões políticas tende a ser aqui mais completa e rigorosa, mas também os argumentos para alargar sempre mais a esfera do intervencionismo público – porventura até ao ponto de ficar “à beira da bancarrota” (ou à mercê de uns novos adeptos do estatismo económico). Porém, com o notório enfraquecimento da “ética republicana”, também neste campo a tentação do lucro levou a melhor sobre o “espírito de serviço público” no que toca às mais elevadas esferas de decisão estatal por parte dos dirigentes partidários. As grandes câmaras municipais, os governos regionais e os ministérios são hoje decisores económicos de primeira grandeza, que lidam de igual para igual com os gestores de grandes empresas multinacionais ou os responsáveis de enormes instituições financeiras. O simples cidadão pode ser alertado para tal ou tal “caso” sinalizado pelos mass media mas não tem qualquer hipótese de entender se se trata de uma honrosa defesa do “interesse público” ou de mais uma mera “negociata”.
No tocante à constituição e fidelização de clientelas, são provavelmente equivalentes os efeitos dos dois modos de exercício da governação, pois são elas que constituem os “activos” mais dinâmicos e valiosos com que se garantem e ganham os votos dos eleitores, por definição mais voláteis e susceptíveis de variação com os impactos emocionais, planeados ou apenas melhor aproveitados quando correm inopinadamente.
Por tudo isto, vemos que a descrença e o cepticismo ganham força entre os cidadãos e compreendemos as suas razões. Compreendemos mesmo porque eles continuam a confiar o seu voto nestes protagonistas políticos. Por prudência ou sabedoria ancestral, preferem actores já bem conhecidos, à incerteza e risco de novos aventureiros (pelo menos até ver em que dá o imbróglio dos nossos vizinhos espanhóis).
JF / 24.Fev.2016

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