sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Mário Soares

Finou-se há sete dias uma das figuras cimeiras da vida portuguesa da nossa época. Já tudo foi dito e escrito sobre a personagem, quase sempre em termos elogiosos (sobretudo pela voz pública), como é de norma e neste caso também de justiça, se apaziguarmos as paixões.
Porém, alguns viram nele o político que vendeu o ultramar aos nacionalistas dos diversos territórios sem cuidar devidamente dos portugueses de raiz que lá viviam e dos naturais que queriam continuar a sê-lo, nem tentar uma transição que assegurasse a paz nos territórios e um mínimo de convivência democrática entre aqueles que ali aspiravam ao poder (mas é certo que os soldados já não queriam combater e os capitães-de-Abril estavam ideologicamente adquiridos à “justa luta” dos independentistas). Outros não lhe perdoaram ter então virado as costas à “união-das-esquerdas” em Portugal e, pelo contrário, ter encabeçado “a reacção” contra as dinâmicas revolucionárias ou aventureiras da extrema-esquerda.
De facto, contrastando com a flacidez da sua fisionomia e a argumentação superficial e inconsistente que era geralmente a sua, Mário Soares revelou-se então como o “leão” que se bate sem temor e arrisca tudo para alcançar o que a sua certeira intuição política lhe recomenda. Nessa altura, em que se jogava o destino do país, era: -garantir um quadro de liberdade democrática compatível com o modelo dominante no Ocidente; -travar os frescos entusiasmos da “esquerda militar” que pensava como se estivesse em África; -impedir um “retorno do pêndulo” que conduzisse a uma solução política restauracionista; -arriscar-se a ter como “companheiro de barricada” muito do que havia de conservador na sociedade portuguesa de então, que em seguida lhe haveria de pedir contas.
Nessa ocasião foi, à nossa pequena escala, o “Churchill português”, que corajosamente se empenhou e conseguiu ganhar uma batalha decisiva. O regime democrático deve-lhe muito.  
Estabilizado esse, Soares foi o político habilidoso que todos reconheceram, usando das mais variadas jogadas e estratagemas para aceder e ocupar o poder – como chefe do governo e Presidente da República –, ou para contestar e minar um governo de cor diferente da sua – como líder da oposição, também como Presidente da República e ainda como aposentado da função, desmentindo a promessa que fizera de, depois de Belém, não lhe fazer sentido voltar à política partidária. Nesta vertente, Mário Soares foi apenas um chefe-de-partido, de grande longevidade e notável capacidade de “influência”.
Recordar os tempos em que o jovem Soares era um militante empenhado do partido comunista é matéria que não tem hoje grande significado e deve ser deixada aos historiadores, tal como as razões porque dele se afastou, aproximando-se de gente mais próxima da família política de seu pai, republicanos de sensibilidade socialista como, por exemplo, António Sérgio.
Em contrapartida, não pode ser esquecido o seu prestígio e reputação internacional, mesmo numa época que deixou de ser a sua. Para além das relações pessoais que cultivava (Mitterrand, Felipe González, Helmutt Schmitt, Olof Palm, Bettino Craxi, Ximon Peres e até Yasser Arafat o apreciaram), foi também o país moderno pós-salazarista que, através dele, esteve presente nesses areópagos europeus. Para o que certamente também contou (superando o péssimo domínio de línguas estrangeiras) a sua simpatia e carisma pessoal, tanto como um certo domínio da história e à-vontade nos temas culturais. E a Fundação com o seu nome constitui hoje um património documental de valor inestimável.
Mas há ainda a faceta mais obscura do chefe-de-clã. Só os próximos saberão dessas coisas. Mas há suficientes relatos públicos para se perceber que a fidelidade pessoal traída ou a denúncia de certos segredos determinaria nele e nos seus próximos atitudes de rejeição e de “cordão sanitário” de que ninguém mais se poderia livrar, salvo passando-se para um campo adverso.
Intuitivo, com gosto pela escrita, sagaz, corajoso e com o sentido das oportunidades dos políticos de gema, Mário Soares é um dos homens públicos incontornáveis do século XX português. Há-de ser sempre recordado.    

JF / 14.Jan.2017

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