sexta-feira, 28 de julho de 2017

Contrastes estivais

Abordamos hoje três tópicos com escassa ligação ontológica entre si. “E pur…”

1.      Os jovens e a integração social
Em tempo de especial intensidade dos festivais de música, onde há de tudo, vale a pena reconsiderar o que estes encontros têm de positivo, porque quanto ao resto estamos já conversados (excessos, superficialidade, ausência de ponderação ou falsa intimidade). Não esquecemos que os festivais pop têm na base o star system originado nos estúdios cinematográficos de Hollywood e que depois se estendeu à canção ligeira, à actividade televisiva e ao mundo inteiro vergado no século XX ao american way of life. Estamos também cientes de que – tal como as tournées mundiais de cantores famosos – mesmo para organizar hoje Vilar de Mouros, Paredes de Coura, o Rock in Rio, o Super-Bock-Super-Rock ou o Festival do Sudoeste são necessários grandes investimentos financeiros, dispositivos técnicos e publicitários sofisticados, bem como especialistas munidos de diversas competências jurídicas, negociais, etc. (Note-se que não estamos a forçar a nota ao empregar todos aqueles termos em itálico, os quais já nem podemos qualificar de “estrangeirados” porque estão hoje integrados no falar de grande parte das nossas sociedades.) Apesar disto tudo ser verdade, vultoso e pouco edificante em si mesmo, também devemos reconhecer a importância que tais iniciativas revestem para a vida dos jovens (e alguns menos jovens).
É, em primeiro lugar, a fruição da música, em si mesma. Por muito ruidosas que às vezes sejam, surgem com frequência belíssimas composições (harmónica ou ritmicamente), vozes estranhas e execuções instrumentais originais que provocam emoções novas, revisitadas ou profundas em milhares de pessoas que, nessas ocasiões, se evadem de todos os constrangimentos que habitualmente os incomodam e então experimentam uma sensação libertadora que chega a marcar as suas vidas. Não raro, tais experiências sensoriais, impossíveis de conseguir em isolamento (a despeito dos phones na cabeça com que passam grande parte dos seus dias), são vividas em íntima comunhão de vibrações com outra pessoa – e aí se gera um laço amoroso ou erótico de especial intensidade. Não despiciendo mas mais sujeito a desconfianças e susceptível de efeitos nefastos (que nem sequer podemos qualificar de secundários, tal a relevância que por vezes assumem) é o clima emocional gerado entre milhares de pessoas concentradas num mesmo espaço e sujeitas à agressão dos milhares de decibéis despejados sobre o recinto, além de outras encenações encantatórias (luzes, fumos, gestos dos artistas, etc.). Isto constitui muitas vezes um momento extraordinário de emoções e sensações, que apela a novas experiências.
Mas é também aqui que a “irracionalidade das massas” provoca mais perturbações e reacções negativas em cérebros simultaneamente pausados e portadores de memória social, pois lembramo-nos amiúde dos comícios nazis de Nuremberg, dos desastres ocorridos em estádios como no Haisel de Bruxelas ou das comoções e movimentos descontrolados das multidões de peregrinos em Meca. O êxtase ou o Nirvana cohabitam muito próximos do desastre e da morte.
O mesmo tipo de equívocos se passa no desporto. Pratiquei esgrima desportiva a partir dos 14 anos, a sério, e depois, como veterano. Antes como agora, nunca me esqueci de que, além de um confronto de técnicas, recursos físicos, inteligência e vontade, do esvaziamento lúdico da nossa agressividade natural, se tratava de uma imitação simbólica do duelo agónico, em que cada estocada podia representar um golpe mortal. Isto era, porém, balizado por um conjunto de regras partilhadas por todos os contendores, as quais se percebia serem por vezes respeitadas por alguns já na zona indecisa dos limites prescritos, ou então de má-vontade, disfarçando apenas o desejo de esmagar o outro ou de vencer a qualquer preço. Hoje, com a profissionalização dos agentes desportivos e a espectacularização da sua prática, os benefícios mentais da actividade física tendem mais frequentemente a ser ultrapassados pela obsessão da vitória.
E temos também a questão dos “maus exemplos”: álcool, drogas, doping, promiscuidades sexuais, etc. Atente-se ao modo como as pessoas andam vestidas na cidade: tal como na praia. E veja-se a utilização feita pelos jovens dos capuzes que a indústria passou a coser nas golas das suas camisolas de lã ou algodão (ou mais frequentemente de fibra sintética barata). Ao cobrirem as suas cabeças deste modo, eles querem significar uma atitude de dissensão, de exclusão ou auto-exclusão em relação à sociedade “oficialmente instituída”. E se um adulto (um especialista ou um agente da autoridade, porque o simples passante já não se atreve) lhes perguntar se o fazem para se proteger do frio ou do vento, ouvirão provavelmente uma destas respostas: -Não me chateies!; -Não estou nessa cena…; -Eu sou eu e o resto que se f.; -O que é que queres, meu?
A transgressão, na linguagem, maneiras, vestuário, etc., é hoje um padrão de toda a cultura artística, seja a pop, seja mais erudita, e por isso – com a economia a montar tal cavalo e o populismo partidário a não o desperdiçar – não nos podemos espantar com tais manifestações correntes e que a Lei sejam cada vez mais impotente para normalizar comportamentos sociais. Por este tipo de coisas, manifesto o meu desacordo quanto ao ante-título com que o jornalista João Miguel Tavares costuma encimar os seus artigos de jornal: o “respeitinho” talvez não seja muito bonito. Mas o respeito deveria sê-lo.
As pessoas de hoje tem uma relação da psique com o seu próprio corpo incomparavelmente mais livre do que há meio-século atrás. As barreiras do pecado religioso ou do “parece mal” social foram arrombadas, por homens como por mulheres, desmistificando-se e naturalizando-se a masturbação, a homossexualidade ou a (in)fidelidade conjugal, tanto quanto as formas que antigamente se empregavam para as contornar. Porém, os valores da intimidade e da lealdade na relação entre pares são hoje mais difíceis de serem percebidos (e praticados). E, sem eles, vem o risco de tudo se tornar mais grosseiro, fútil ou perverso.
Em contrapartida, o “politicamente correcto” está a tornar-se de tal maneira pressionante que quase constituiu já uma ameaça à liberdade de expressão. Além de vários outros, veja-se o caso recente do dr. António Gentil Martins, vilipendiado de mil e uma maneiras por exprimir a sua opinião sobre matérias de sexualidade. Bem sei que ele utilizou algumas palavras já fora do léxico científico corrente (que contém sempre alguma espécie de censura social, embora erudita). Mas, no fundo, ele não só exprimiu a sua convicção profunda como também os sentimentos que a maioria, com prudência e alguma cobardia, se exime hoje de formular – oferecendo o deleite aos que gostam de “malhar” nesses temas. É preciso, então, recordar Voltaire: «Não estou de acordo com aquilo que dizeis, mas bater-me-ei até ao fim para que o possais dizer!». Embora com uma linguagem rebuscada e pouco clara para a maioria dos leitores, creio que no mesmo sentido vão as reflexões de Pacheco Pereira no Público de 24.Jul.2017 sobre racismo, populismo e a sua crítica pelos radicalismos de esquerda. É que a linguagem – o radicalismo do seu mau uso – voltou a ser um elemento de domínio social.

2.      Europeismo
Há boas razões para desconfiar do “europeísmo”, tal como ele é superficialmente entendido e discutido: um “albergue espanhol” onde tudo cabe, desde as decisões de um “directório” (franco-alemão), à tolerância para com políticas nacionais quase-autoritárias como as da Hungria, da Checa ou da Polónia (estando já longe as ameaças de um Guterres contra o austríaco Haider), à existência de um “euro-grupo” com a importância que adquiriu apesar de inexistente nos tratados formais, ao predomínio dos interesses económicos dos grandes poderes sobre todos os “periféricos”, à asfixiante burocracia centralista da Comissão, aos privilégios dos parlamentares e ao inacreditável despesismo com a sua casa itinerante entre Bruxelas e Estrasburgo, etc. Mas é importante reconhecer a paz e as cooperações reforçadas entre velhas nações rivais que a CEE/UE tem permitido, a existência de espaços de encontro e de vivência construindo progressivamente uma identidade europeia, bem como, finalmente, a presença de instâncias judiciais de recurso comuns a que, em última instância, se devem subordinar os tribunais nacionais, os governos, as empresas e os cidadãos do continente, numa época em que a escala demográfica e económica – além da capacidade técnico-científica – voltou a ser decisiva no nosso mundo globalizado.
É certo que, sendo a ligação à UE e ao Euro fundamentais, estas instituições manifestam precisar de várias reformas, económicas e políticas, talvez em simultâneo com a negociação do Brexit (ou talvez só após, se ainda houver tempo para isso), que: a) revejam as questões financeiras, bancárias e orçamentais; b) instituam políticas coordenadas mais eficazes nos domínios da segurança, fronteiras, migrações, justiça e intelligence; c) dêem caça aos desperdícios e disfunções das instituições europeias (parlamento em 2 sítios, burocracia, presidências rotativas, etc.); d) melhorem, tanto quanto for possível, a legitimação popular e o processo decisional das instâncias de topo da União, mais num sentido confederal do que propriamente federal. Mas muita atenção vai ter que ser prestada nestes próximos anos ao relacionamento externo da Europa com a NATO, os EUA, a Rússia, a China, a Turquia e o mundo árabe (além do resto). E não parece que a simpática Srª Mogherini esteja em condições para o fazer cabalmente.

3.      Economia globalizada
O desenvolvimento da economia moderna, de mercado e livre concorrência, sempre foi acompanhado de um paralelo desabrochamento das actividades financeiras, desde que os fechamentos e proteccionismos medievais-corporativos cederam sob a pressão das filosofias liberais do século XVIII e algumas revoluções e transformações políticas posteriores. Esta evolução foi-se acentuando ao ritmo de décadas, com ocasionais crises do sistema económico-financeiro e outros conflitos de natureza diferente: lembremos as guerras por interesses dinástico-nacionais e visões estratégicas, a irrupção do movimento operário socialista na cena social e na disputa política, a superação do tabu da escravatura, o afloramento da emancipação da mulher ou os processos de descolonização. Nessas épocas, o poder económico das velhas e novas aristocracias encontrou formas de acomodação com os interesses da grande burguesia (e da média, que ia crescendo) enquanto os pequenos proprietários (de terras, comércios ou meios de produção artesanais) se viram muitas vezes sujeitos a implacáveis condições de sobrevivência, caindo alguns na “proletarização”-a-salário, decidindo-se outros pela migração territorial (para as cidades, o “novo mundo” ou países mais ricos carentes de mão-de-obra barata) e apenas alguns conseguindo medrar como empresários em novas e ásperas actividades concorrenciais. 
Com a unificação dos mercados à escala mundial (parte fundamental da chamada globalização), enfim plenamente possível após a evolução da China ocorrida nos anos de 1975/80 e a queda do bloco socialista liderado pela URSS, o poder das empresas multinacionais acentuou-se aproveitando a fundo os avanços tecnológicos coevos, mas o surto económico “neo-liberal” focou-se especialmente nos sectores do comércio (com acréscimo e sofisticação da correlativa publicidade, conquista de novas populações consumidoras, etc.) e nas actividades financeiras.
Ora, estas últimas puderam multiplicar-se aproveitando a ausência de uma efectiva supervisão mundial, criando muitas vezes (graças a operações de crédito de risco e mesmo manipulações delituosas) uma ilusão de riqueza usufruível por uma “classe média” cada vez mais ampla e inclusiva, embora muito segmentada e sem qualquer “consciência de classe”. Bens de consumo caros e baratos, duradouros ou logo fungidos, viagens e equipamentos (de inovação/rotação acelerada), aquisição de bens de raiz (essencialmente propriedades urbanas, incluindo uma residência secundária) e de toda a sorte de serviços de preço variável desenvolveram-se então desmedidamente, constituindo uma “locomotiva” do crescimento económico a que o sector produtivo (das fábricas, bens primários e produtos de ciência-e-tecnologia) ia dando resposta e simultaneamente estimulando, graças à automatização dos processos laborativos e a algum embaratecimento (relativo) dos custos do trabalho a eles associado.
Neste quadro, as actividades especulativas (sobre os câmbios monetários), os mercados das dívidas (estatais e privadas, empresariais ou particulares) e mesmo as operações ilegais (de drogas e outros tráficos, branqueamento de negócios sujos, etc.) puderam medrar, ao mesmo tempo que gizaram oportunidades de corrupção dos agentes políticos a que estes não souberam resistir – porque também os valores e normas morais (muito ligados às religiões, ao patriotismo e ao espírito republicano) tinham sido entretanto abalados pelos novos costumes, libérrimos ou mesmo libertinos.
No caso de Portugal, foi patente o contraste entre a disciplina rigorosa que a Europa do norte nos tentava impor (também em seu benefício próprio) e o “fartar vilanagem” a que se entregaram dirigentes empresariais e partidários nas suas relações com parceiros como “os grandes” do soba socialista de Angola, o Brasil, a Venezuela, o Médio-Oriente ou onde vigorassem “paraísos fiscais”. O excesso de consumo privado e de despesa pública é negado pelos arautos tradicionais do anti-capitalismo, incluindo aqui a esquerda-caviar à moda do doutor Francisco Louçã e mesmo a inteligente argumentação de um Ricardo Paes Mamede (ver o seu O que Fazer com este País, 2015), para quem todo o mal vem dos empresários, especialmente se forem americanos, e toda a solução só pode vir das políticas estatais. Mas muito da nossa perda de empresas importantes e dos descalabros financeiros de que ainda padecemos teve, na sua génese, decisões tomadas por gente da elite partidária governamental, em estreito conluio com grandes interesses económicos. Ao mesmo tempo, o leque da distribuição da riqueza e dos rendimentos gerados alargou-se, com um pequeno número de “bilionários” e perto de 30% da nossa população encontrando-se no limiar ou em situação plena de pobreza, ainda assim mitigada pela acção pública, sejam os mecanismos redistribuidores do Estado-providência, seja a ajuda das instituições particulares de solidariedade social.
De registar que, se subsistem ainda algumas famílias da alta-burguesia e da aristocracia do nosso liberalismo com forte capacidade económica – pensemos nos Champalimaud, nos Melo, nos Burnay, mas que alguns, como Ricardo Salgado, foram capazes de desbaratar –, os “cabeças de lista” são agora nomes fundadores de novas linhagens familiares com os Amorim, os Belmiro de Azevedo, os Soares dos Santos, os Guedes (dos vinhos e dos casinos) ou os Nabeiro, todos de ascendência modesta, para já não falar dos Zeinal Bava, dos Granadeiro ou dos Mexia que oscilam entre os píncaros da fama e suspeitas menos abonatórias.
Não é verdade que os case studies agora discutidos nas faculdades de economia e gestão se referem a Bill Gates (e a outros que começaram nas garagens paternas), em vez dos Henry Ford de há décadas atrás?


JF/ 28.Jul.2017

sábado, 22 de julho de 2017

Os escritores e o empenhamento sócio-político

Mais do que quaisquer outros criadores artísticos, os escritores ocidentais dos séculos XIX e XX foram muito tentados para fazerem das suas obras literárias oportunidades de crítica social e política ou mesmo para, com maior ou menor subtileza, propagandearem as ideias em que acreditavam.
De facto, deve ser muito difícil escrever uma novela ou romance – sobretudo com os estilos de escrita daquelas épocas – sem produzir juízos de valor sobre a sociedade em que a história se desenrola. E, nessas circunstâncias, passa sempre uma mensagem para o leitor de valorização ou depreciação da mesma, ainda que de forma implícita e não explorada. Porém, o romantismo que dominou uma boa parte da produção cultural de Oitocentos tendeu quase sempre a focar-se nos indivíduos e nas relações interpessoais, nos seus impulsos e estados-de-alma, nos encontros e desencontros proporcionados pelo acaso enigmático ou potenciados pelas paixões, com a consequente desvalorização do ambiente social em que as personagens se movimentavam – salvo nesse papel de mera “tela de fundo” onde evoluíam os actores. Pensemos em escritores como Balzac, Stendhal ou Victor Hugo, em Walter Scott, em Dostoiévki e Tolstoi, ou ainda no nosso Garrett, e podemos associar a arquitectura das suas obras com a arquitectura de pedra, madeira, pintura e outros artefactos dos palácios da Baviera ou de Sintra (bem diferente do efeito que a potência do império fazia pesar sobre os edifícios vitorianos), ou com ecos do que aí se escutaria do piano de Chopin ou dos acordes vibrantes de Beethoven. 
A partir do último quartel do século XIX, as correntes estéticas realistas trouxeram uma ruptura significativa nestes códigos, enquanto se desenvolvia um gosto pelo folklore e o nacionalismo na música e pelo naturalismo nas artes plásticas, cujo término foi anunciado por um Van Gogh ou pelos impressionistas franceses. Na literatura, desviava-se a incidência da sua focagem das pessoas e das suas interacções para o contexto social em que se situavam, o qual, em boa medida, explicaria os seus comportamentos e reacções, pelos “constrangimentos sociológicos” exercidos sobre a liberdade de acção dos indivíduos. Relembre-se que estávamos então nos balbuciamentos iniciais da ciência sociológica – muito marcada pelo mecanicismo positivista, que teve amplo sucesso durante algumas décadas, influindo na política, no direito e nas relações internacionais –, enquanto que, nomeadamente, o estudo do psiquismo humano lutava ainda arduamente para se libertar dos preconceitos associados ao sonambulismo, ao “magnetismo” hipnótico ou à taxonomia das patologias mentais. Os escritores franceses e russos destacaram-se em grande plano nesta nova “escola”, mas que teve cultores em todo o ocidente e transbordou do romance para o teatro e a poesia: Flaubert, Zola, Ibsen, Machado de Assis, Maiakowki e mesmo Erich-Maria Remarque ou John Steinbeck filiam-se nesta corrente. Em Portugal, as obras da “geração de 70”, com Eça de Queiroz à cabeça, ainda hoje nos percutem pelos contrastes do seu radicalismo ideológico com a subtil exploração das emoções e a excelência da sua expressão escrita.
Ao mesmo tempo que o surgimento da pintura abstracta e o florescimento da art déco (e mesmo os primeiros ensaios da música do século XX), da “belle époque” finissecular e da matança guerreira de 14-18 – um trauma que devastou a consciência social de uma civilização –, essa época, dizíamos, assistiu também ao aparecimento de uma literatura irregular, socialmente desinteressada, de que algum modernismo é hoje marco testemunhal, como o são certamente os textos de Pessoa e dos primeiros surrealistas.
Os anos de entre-as-duas-guerras (que foi o auge de tensão da “guerra civil europeia” teorizada por Nolte) tiveram a sua tradução no plano cultural e literário com a luta surda entre estas duas grandes correntes estéticas, que só imperfeitamente correspondiam a alinhamentos político-ideológicos. No entanto, estes foram determinantes para o posicionamento de quase todos os criadores, para a escolha dos temas e mesmo para a esteticização das formas de expressão artística ou a instituição de “escolas”. Por exemplo, na URSS o “realismo socialista” foi erigido em doutrina oficial do partido e do Estado. E prolongou-se pelo mundo através das obras literárias de autores ditos neo-realistas (como, de língua portuguesa, Alves Redol ou Jorge Amado), mas também através do cinema (russo e italiano, sobretudo) e outras formas de expressão artística.
Alguns criadores inicialmente adeptos da ruptura revolucionária de 1917 e por ela entusiasmados, começaram a entender o aproveitamento político que os dirigentes do Kremlin faziam dessa situação e, mais cedo ou mais tarde, afastaram-se da sua obediência, tanto ideológica como esteticamente. Foi, por exemplo, o caso de Malraux, de Breton, de Hemingway ou dos espanhóis Garcia Lorca, Buñuel (no cinema) e Dali (na pintura). Pelo contrário, dramaturgos como Brecht, pintores como Picasso ou poetas como Aragon ou Pablo Neruda permaneceram sempre fiéis “ao Partido”. E, entre os portugueses, que dizer, por exemplo, da evolução de José Rodrigues Migueis ou de Mário Dionísio? Em sentido oposto, outros revolucionários houve, mas libertários como o escritor Ferreira de Castro, o publicista João Campos Lima, os jornalistas Pinto Quartim e Jaime Brasil ou o escultor Altino Maia, que nunca se acorrentaram aos “primos” de Moscovo mas praticaram concepções estéticas bem de acordo com os cânones neo-realistas.
Do lado da corrente modernista, não é preciso evocar alguns dos seus nomes iniciadores (Marinetti, Céline ou Erza Pound) para perceber quanto a sua ligação aos movimentos políticos foi menor ou contraditória. Houve autores fascistas ou proto-fascistas (como aqueles), mas também criadores que “se estiveram nas tintas” para a cor do governo, não recusando aceitar as suas encomendas e produzindo obras de vanguarda contrastantes com a ideologia oficial daquele, como foi entre nós o caso de Almada Negreiros. E seria longa a lista dos modernistas que se colocaram declaradamente do lado mais avançado e progressista dos confrontos políticos do seu tempo.  
Algo isolados e excluídos pelos mentores político-culturais do mainstream situaram-se as sucessivas gerações de surrealistas e alguns “franco-atiradores” não alinhados em parte alguma. Isso não impediu que, em certas circunstâncias, os mesmos tomassem posições políticas, compreensíveis umas, outras menos. Lembremos o caso de Jorge de Sena, exilado voluntário de um país medíocre. Segundo um relato confiável (e confirmado documentalmente), durante a campanha eleitoral de Delgado em 1958, Mário Cesariny foi para a Baixa, sozinho, distribuir aos passantes um panfleto apoiante de sua autoria («Um fragmento de liberdade») enquanto os militantes do PC continuavam a propagandear a condenada candidatura de Arlindo Vicente… E à indomável Natália Correia não faltou coragem para aderir ao PPD/PSD e defender alguns dos seus pontos-de-vista no areópago de S. Bento, afrontando a esquerda.
Os terríveis dramas dos anos 30 e 40 – com o nazismo, a guerra e as suas sequências – geraram o ambiente favorável ao surgimento do existencialismo (Sartre, e um pouco Vergílio Ferreira entre nós), já antes anunciado por um instável ou contraditório Paul Nizan e filosofado por Heidegger. Neste tempo, as migrações são rápidas no espectro político, e em direcções cruzadas, mesmo entre escritores de grande reputação, e com alguns “malditos” como Drieu la Rochelle. Falando da incomunicabilidade, das perplexidades e dos comportamentos do “Homem só”, a corrente existencialista ombreou durante alguns anos com as antecedentes pelo favor de editores e leitores. Concentrando-se no mesmo nó temático mas inserido na grande tradição russa, não podemos esquecer o Pasternak do Doutor Jivago, que o cinema poderosamente popularizou. E numa versão comprometida com experiências ditatoriais, temos a escrita rude de Camilo José Cela, falando da sua Espanha chica.
Mas, para além das modas – sempre com o seu quê de estúpido –, existem as épocas históricas que, sem que alguém o decrete, encerram certos períodos e controvérsias (ou paradigmas) e inauguram outros. As clivagens entre modernistas e neo-realistas, existencialistas e surrealistas (mesmo parcialmente ressuscitadas pelos situacionistas) foram sendo, a partir de meados do século passado, progressivamente obscurecidas pelo surgimento do “novo romance” ou, em Portugal, pelo movimento “poesia 61”. A influência cultural francesa mantinha-se viva entre nós (até porque Paris era então a pátria dos exilados e dos emigrantes ibéricos), primeiro com a insouciance de escrita da Françoise Sagan, depois com Robbe-Grillet ou Marguerite Yourcenar (a primeira mulher a entrar na Academie Française), para já não falar do cinema, do ballet ou da canção. Eugénio Manuel de Melo e Castro, Fiama Hasse Pais Brandão e Almeida Faria, entre outros, assinaram então obras inovadoras, que Eduardo Prado Coelho veio a teorizar a seu modo.
Do presente é mais difícil falar, porque não há recuo suficiente, faltam as sínteses integradoras, a produção literária se mundializou e nós já não a pudemos acompanhar. Fala-se da “literatura de aeroporto” ou da “literatura light” em termos pejorativos. Mas, esta nossa “terrinha” reconduzida à sua matriz europeia e em clima de liberdade viu surgirem novos desenvolvimentos da escrita romanesca, com certos traços surpreendentes. “Digerindo” a dolorosa experiência das últimas guerras do império, escritores como António Lobo Antunes ou Lídia Jorge souberam fascinar as novas gerações. E José Saramago foi capaz de realizar a proeza de, permanecendo sempre um “estalinista” político, ser autor de uma escrita ficcional diferente, que lhe valeu amplo reconhecimento internacional.
Nesta resenha quase endo-psicanalista (porque foram estes, e não outros, os nomes de que me foram vindo à memória?) faltam obviamente escritores inapagáveis e tendências consistentes. Lembro-me agora do caso da “literatura feminina” de uma Marguerite Duras, que entre nós se anunciou com as Novas Cartas Portuguesas. Talvez também de um novo romance histórico, com nomes como Patrick O’Brien, Pérez-Reverte ou Fernando Campos. Mas a lista dos Prémio Nobel é cada vez mais diversa de origens nacionais e divulga nomes de proveniência latino-americana como Llosa ou Garcia Márquez e euro-africana como Coetzee e Nadine Gordimer (a que nós poderíamos associar Mia Couto ou Pepetela). E havia revelado poetas orientais como o indiano Tagore ou o japonês Kawabata (mas não o suicida Mishima, nem o erudito argentino-do-mundo Jorge Luís Borges).
Novos criadores existem agora, no país e lá fora, talvez mais libertos do que nunca das tentações da mensagem política ou da crítica social. Muitos desses que escrevem em português, fazem-no com um admirável domínio da linguagem, precisão do verbo e liberdade temática. Será porque atingimos um grau de civilização superior? Ou porque estamos distraídos do que se passa à nossa porta?
No entanto, para cada um de nós, leitor, nada disto é muito relevante comparado com o prazer genuíno que tal ou tal autor, este ou aquele livro, nos é capaz de proporcionar. Aí, sim, está o fascínio da literatura, o génio de certos criadores e a imortalidade de certas obras – não, nestas arrumações de estilos e escolas estéticas, que só têm interesse para os especialistas aprofundarem as suas análises sobre a produção cultural ou, como é o nosso caso, por “vício racional” de tentar arrumar em prateleiras e gavetas aquilo que brota espontaneamente da sensibilidade de alguns e fascina intensamente muitos mais. 
JF / 22.Jul.2017

(PS: Li com agrado a tomada de posição do historiador e romancista João Pedro Marques no Público de 18.Jul.2917 sob o título “Os flagelantes e a escravatura”. Assinaria por baixo.)

sábado, 15 de julho de 2017

Os militares e a sociedade

Embora muito desactualizado, tenho algum conhecimento do mundo militar, não só livresco. Mas estou de fora dele, o que talvez me dê uma maior isenção nas suas apreciações e decerto uma maior liberdade de julgamento.
Os exércitos foram durante séculos forças privadas ao serviço dos reis e da aristocracia mais elevada. A partir do século XVII, com a afirmação dos estados-nação na Europa, começaram a reconhecer-se também como defensores dos territórios nacionais e das suas populações. O grande choque da Revolução Francesa e da aventura napoleónica fortaleceu a ideia de um exército nacional a que os constitucionalismos liberais do século XIX deram a sua mais forte expressão com o serviço militar obrigatório. Nessa época, os militares ainda juravam fidelidade ao rei e à pátria. Com a generalização dos regimes republicanos ficou apenas o patriotismo, mais as regras sagradas da disciplina e da obediência hierárquica.
Porém, estas referências maiores foram algo abaladas no século XX pela difusão dos valores democráticos da liberdade e igualdade proclamados urbi et orbi, mas talvez sobretudo por uma ténue sensação reflexa de ilegitimidade que se foi decantando sobre a experiência das horríveis mortandades das duas Guerras Mundiais (incluindo milhões de civis na segunda) e das “guerras revolucionárias” desencadeadas na segunda metade do século, que têm prosseguido até hoje sob outras formas de conflito assimétrico (terrorismo, etc.). Neste quadro, os grupos políticos de esquerda, sobretudo alguns dos mais radicais (ou genuinamente pacifistas), estimularam comportamentos antimilitaristas na população sobre a base da percepção – muito generalizada no século XIX e ainda prosseguida no seguinte – de que os militares eram “fautores de guerras”, assim como de golpes-de-estado de sentido conservador ou liberticida. Naturalmente, referiam-se especialmente aos altos-comandos mas viam também no pessoal de enquadramento (oficiais e sargentos) os elementos determinantes na operação de transformar um “homem livre” num “pau mandado”. Pelo contrário, outros sectores radicais do espectro político (de direita mas também de esquerda), apostaram antes na infiltração dos seus agitadores no interior das instituições militares, fosse para neutralizar a sua eventual acção anti-social ou para favorecer um inimigo da sua simpatia, fosse para ter a força militar do seu lado numa eventual disputa áspera pelo poder estatal. A palavra-de-ordem de Mao-Tse-Tung “o poder está boca da espingarda” seduziu muitos jovens de meados do século passado.
O exército sempre corporizou a imagem mitificada da instituição militar. Isto porque a marinha (de guerra) se constituiu desde cedo como um corpo separado, meio-marinheiro, meio-militar, portador de uma identidade cultural mais tradicional, conjugando o “aristocratismo” da oficialidade com a rudeza das marinhagens, mas que o sentido do risco, da aventura, e o brio da sobrevivência uniam de uma maneira muito particular. Além disto, a partir do século XIX, a marinha sofreu, rápida e fortemente, o impacto das modernizações técnicas industriais, enquanto o exército continuava a ser, no fundamental, um rolo compressor de “trabalho-intensivo”. Nascida do nada, nos alvores do século XX, a aviação (militar) improvisou-se, já em pleno “mundo tecnológico” – de cujo desenvolvimento acelerado foi, de resto, um dos melhores exemplos –, tendo, por isso, que inventar uma sua própria idiossincrasia, assente no risco e no destemor, embora focada no domínio das suas competências técnicas (e na importância dos seus custos). Ficou assim um corpo sem tradições antigas, apenas adaptado o necessário às rotinas e rituais há muito vigentes nos outros corpos militares, também porventura frágil na auto-percepção de como podia ser instrumentalizado por interesses (políticos) alheios à sua missão profissional.
As guerras externas em que Portugal esteve envolvido nos últimos dois séculos foram apenas as guerras de ocupação colonial (sobretudo entre 1891 e 1907), o conflito mundial de 1914-18 e as últimas guerras-do-império em 1961-74. Porém, estivemos à beira de outras que tiveram lugar ou se prefiguravam nas nossas vizinhanças geográficas e que obrigaram a esforços intensos de defesa nacional armada, nomeadamente nos casos da guerra civil de Espanha (1936-39), na guerra geral de 1939-45 e na “guerra fria” entre o Ocidente e o Bloco de Leste entre 1950 e 1991. Em todas estas conjunturas, os militares e a nação aceitaram os esforços que lhes foram pedidos, a despeito das críticas de alguns sectores de opinião minoritários.
Em determinadas circunstâncias, as unidades militares intervieram também no plano interno, para impor a lei-e-ordem, a mando do governo legal. E produziram as três mudanças de regime político que o país conheceu no século XX. Porém, depois de 1834, só rara e fugazmente se dividiram em conflito armado, apenas algumas vezes aflorado ou ensaiado e logo apaziguado, mais frequentemente brandido como ameaça para obter efeitos num jogo político nacional de baixa qualidade. Mas hoje, como nos outros países do Ocidente, vivemos numa sociedade pacífica, com subordinação das Forças Armadas ao poder civil democrático, embora o ambiente externo geoestratégico esteja longe de ser tranquilizador.
Em prontidão para combate, os militares portugueses têm evidenciado qualidades de bravura, inteligência de comando e sistemática-e-improvisação logísticas que são francamente comparáveis a forças estrangeiras dotadas de muito melhores recursos. Porém, como em todos os outros exércitos, no resto do tempo e na “vida quarteleira” imperam as rotinas burocráticas, os rituais regulamentares e as práticas sem sentido objectivo – que vão ocultando os subtis jogos de interesses inter-corporativos e as rivalidades na ascensão profissional. Salva-se geralmente o cuidado posto na conservação do património e no bom uso da “fazenda nacional” a seu cargo; e talvez também o profissionalismo de que parecem imbuídas as novas gerações. Com dois adicionais mais recentes: à vista do que nos conta a comunicação social, a desfaçatez do ganho ilícito ou da corrupção vai alastrando por todo o sector público sem encontrar barreiras éticas e legais suficientes; e as instituições para-militares que nas últimas décadas têm proliferado (forças policiais, de protecção civil, etc.) parecem querer imitar alguns dos piores comportamentos que podem encontrar na esfera castrense.
Oxalá a futura realidade possa desmentir as actuais preocupações.

JF / 15.Jul.2017


Post Scriptum: A obediência cega e a disciplina-por-castigo (com o essencial dos louvores para os comandos) eram provavelmente a única forma de lograr que grandes massas de homens fossem vencedoras na batalha. E o rústico nível cultural do pessoal de enquadramento que lhe estava associado era tanto o promotor necessário dessa disciplina como o seu resultado.   

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Dilemas terríveis

Estava-se em plena Batalha do Atlântico e a corveta Compass Rose navegava em mar picado rumo a nordeste. O navio era acanhado e escassamente equipado mas o comandante Ericson conseguira unir bem a centena de homens da sua guarnição para o cumprimento das missões que lhes eram atribuídas, essencialmente de escolta de comboios de navios de transporte com subsistências, homens e materiais para as populações e as frentes de guerra aliadas na Europa. Os submarinos da Kriegsmarine atacavam com frequência lançando os seus torpedos em imersão, ora isoladamente, ora em “matilhas”, perseguindo por vezes as suas presas durante muitas horas até acharem o momento mais adequado para terem sucesso.
Passava das 7 da manhã e os quartos preparavam-se para serem rendidos na corveta quando um dos navios que se atrasara um pouco do comboio foi torpedeado, a cerca de 2 milhas de distância. Tocou o besouro dos postos-de-combate, o comandante subiu rapidamente à ponte, ordenou “toda a força a vante” e a proa conveniente ao homem-do-leme de modo a acercar-se da zona onde umas dezenas de náufragos tentavam sobreviver, apenas com os seus coletes salva-vidas. Minutos depois, da cabana do asdic, o marinheiro operador lançou o grito: “Contacto! Tenho um eco no azimute um-três-cinco vermelho”. Talvez influenciado por tal notícia, o grumete de vigia a bombordo disse então que lhe parecera ter avistado um rasto branco de periscópio ou snorkel, entre a carneirada da pequena ondulação. O comandante dirigiu para lá o seu navio mas ficou sem respiração quando deu conta que se tratava, afinal, da mesma zona onde se encontravam os náufragos, esbracejando: uns quarenta, calculou por alto. Se o submarino inimigo estivesse ali, as bombas de profundidade que lançaria decerto os matariam a todos. E as ordens do Almirantado e do Gabinete de Guerra de Chuchill eram taxativas: tudo devia ser sacrificado ao objectivo de pôr fora de combate um navio inimigo ou salvar uma unidade da Navy.
A seu pedido, o imediato confirmou do asdic: “É um eco autêntico. Só pode ser o submarino, que agora nos ameaça!”. Em tais condições, nem pensar parar as máquinas da corveta e pôr na água as baleeiras para resgatar os náufragos: seria oferecer um alvo imóvel aos boches. Dilacerado pelo dramático pela situação, Ericson assumiu o dever de todo o comandante em combate: ordenou “Pronto a atacar!”, completando com os dados de regulação da profundidade das bombas, de acordo com o posicionamento do “eco”, já apenas a 300 jardas de distância.  E, num sofrimento moral atroz, soltou a voz de “Fogo!”.
Como é sabido, a superfície do mar estremeceu sucessivamente em círculos concêntricos brancos donde se elevavam gerbes com vários metros de altura. Os corpos dos desgraçados saltaram como bonecos desarticulados, muitos ficando despedaçados à tona de água. Toda a guarnição da corveta estava lívida e alguns fitavam o comandante tentando entender o seu estado de espírito. Mas, caso estranho, não boiaram destroços do submarino nem apareceram manchas de óleo à superfície. Passaram os minutos, agora com o inglês a pairar, na expectativa, sem compreender muito bem o que se passava. O “eco” da detecção fora-se atenuando e quase desaparecera. Vários marinheiros se interrogavam sobre o que, de facto, acontecera; se o alemão os tinha ludibriado e escapado ao castigo; ou se…
O lieutenant-commander Ericson mandou finalmente a “dar volta” aos postos-de-combate e regressar à navegação a bordadas, reocupando o seu lugar na escolta. Conferenciou com o imediato e, em seguida, fez seguir uma mensagem secret para o comodoro do comboio. Nela dava conta do sucedido e aventava a hipótese de o “eco” do asdic ter sido, afinal, do casco do navio torpedeado descendo no oceano, e não do seu executor. E pedia para ser substituído no comando logo que fosse oportuno.
Este é – mais coisa, menos coisa – um caso relatado, com superior qualidade literária, por Nicholas Monsarrat em The Cruel Sea, livro que alguns liam nos anos 60. É um dos dilemas com que sempre se confrontam os chefes militares no terreno, especialmente quando envolvidos em guerras irregulares e assimétricas ou quando se batem no mar contra outros marinheiros que, num instante, podem deixar de ser inimigos para se tornarem náufragos que devem ser socorridos, na medida do possível. Esse é um drama de todas as guerras e de grande parte das situações de emergência, para as quais se exigem uma sólida formação moral e a plena assunção de responsabilidades pessoais. Mas cabe à sociedade evitar que tais situações aconteçam.
JF / 8.Jul.2017

(Dedicado ao meu velho amigo Zé Carlos B.B.S., que foi perito na matéria)

sábado, 1 de julho de 2017

O desenho das nações da Europa

A história da Europa foi um processo muito complicado, que só os especialistas dominam com desenvoltura. A política (com os desempenhos reais, a guerra e a diplomacia a terem aqui o papel dominante), mas também a religião, a economia, as compartimentações geográficas (rios e maciços montanhosos) e certos fenómenos ou acontecimentos culturais misturam-se num emaranhado de causas e efeitos que exigem uma atenção rigorosa à cronologia e ao desenho das fronteiras.
Temos geralmente uma ideia (mais ou menos aproximada) do que se passou depois da Revolução Francesa e da invenção da fábrica e da máquina a vapor. Mas sobre o que foi a Europa na longa transição da Idade Média para os Tempos Modernos, tudo se nos torna mais confuso. Deixemos de fora, desta vez, a época medieval e mesmo o Renascimento (quando, segundo alguns, a Europa começou a preparar a Modernidade) para nos concentrarmos na realidade dos estados que retalhavam este continente desde o movimento da reforma protestante do século XVI até ao novo grande marco histórico que foi a Revolução Americana de 1776. Bem entendido, traçamos apenas um esboço, a traço grosseiro, das políticas desenvolvidas pelos principais poderes soberanos no período compreendido entre o estilhaçar da hegemonia espiritual da Igreja de Roma sobre o ocidente europeu e a primeira revolta libertadora de uma possessão colonial contra os Senhores distantes seus mandantes.

Às críticas e declarações de ruptura protagonizadas por Lutero e Calvino contra o Papa, seguiu-se o conflito aberto e a reacção da Contra-Reforma, em que se inseriu a criação da ordem dos Jesuítas e o recrudescimento da actividade do tribunal do Santo-Ofício. Mas se isto se passou no interior do movimento religioso, pior talvez foi a entrada em cena de poderes políticos alinhados com um e outro lado da contenda teológica, doutrinária e disciplinar da Igreja. Até então subsistia no âmago do continente o velho Sacro-Império Romano-Germânico medieval, ou seja, a aliança do principal rei alemão com o bispo de Roma. Recorde-se que a Alemanha desse tempo estava politicamente fragmentada em algumas centenas de pequenos estados (principados, etc.) e esclareça-se o significado de termos que desaparecerem do nosso léxico como as Dietas e os Grandes Eleitores: as primeiras eram parlamentos selectivos onde só tinham assento nobres e hierarcas religiosos; os segundos, eram os príncipes mais poderosos que elegiam o titular do Sacro-Império.
Os cálculos e os acasos das descendências puseram nas mãos do seu imperador Carlos V a Áustria, a Boémia, parte da Alemanha, os Países-Baixos, a Espanha, etc. (1519). O seu filho Filipe II perdeu a Holanda (1579) mas acrescentou-lhe Portugal e as posições que este detinha além-mar (1580). Poucos anos depois, em 1588, os navios da rainha Isabel I de Inglaterra (filha de Henrique VIII, que proclamara a independência da sua Igreja em relação ao Papa) e uma oportuna tempestade derrotaram a Invencível Armada dos reis católicos de Espanha. Começou aqui o lento declínio dos países ibéricos, a partir da transferência do seu comércio marítimo de longo curso para Holandeses e para Ingleses.
Estes séculos XVI e XVII assistiram a um prolongado período de guerras religiosas, porém protagonizadas pelos monarcas dos vários estados existentes no espaço europeu. Houve de tudo: guerras civis e guerras entre soberanos; também guerras sociais, nomeadamente aquelas que opuseram os camponeses da Europa central aos “senhores da terra”, que os esmagavam de impostos e corveias; às vezes também entre príncipes (ou bispados) e cidades livres. Até a católica Espanha teve de enfrentar idêntica revolta das comunidades municipais (e acessoriamente de camponeses, também com laivos de milenarismo religioso), com os comuneros de Castela (1520-1522), em reacção contra a centralização de poderes imposta por Carlos V.
Percorrendo os manuais de história, a confusão parece grande para qualquer não-especialista, mesmo medianamente culto, e torna-se impossível sintetizá-la em poucas linhas sem cometer grosseiras simplificações. Porém, uma coisa parece certa: estarmos num período de transição no qual a disputa religiosa (sempre no quadro cristão) simultaneamente acelera e mascara a transferência da principal conflitualidade do âmbito inter-feudal (e, portanto, aristocrático-familiar) para o âmbito inter-nacional, sendo que, nesta fase inicial, o “nacional” é representado ainda incipientemente por alguns grandes reis precursores ou realizadores do “absolutismo”, como sucedeu no caso da França (com Francisco I, um dos últimos da dinastia de Vallois no século de Quinhentos; e com Luís XIV, já dos Bourbons, no seguinte, pilotado por ministros como Richelieu, Mazarin ou Colbert) e também da Prússia (antes principado de Brandeburgo, agora com Frederico II, o Grande), antecipando o que viriam as ser os grandes conflitos franco-alemães dos séculos seguintes. Note-se que em Portugal, o “absolutismo” só chegou verdadeiramente no século XVIII sobretudo quando Pombal impôs aos duques a supremacia dos interesses do rei(no).
Outros poderes “nacionais” se esboçam também, mais nas periferias, como aconteceu na Escandinávia, na Holanda, nos estados-da-Igreja italianos e na Espanha (que nessa altura englobava Portugal e constituía um império colonial poderoso), cada qual com a sua especificidade. Mas é desde já de assinalar que no exterior deste espaço continental, outras grandes potências marcavam a sua presença, sobretudo o império Turco-Otomano que, além do Próximo-Oriente, incluía os Balcãs e a Grécia, partes da Hungria e chegou mesmo a ameaçar Viena (em 1529 e 1631), só sendo travado no Mediterrâneo pela resistência de Malta (1565) e pelas coligações levantadas pelos papas e os sucessos das batalhas navais de Lepanto (1571) e Matapan (1717). Mais distante era então a ameaça do gigante Russo, pois com Ivan o Terrível os monarcas de Moscovo haviam sobretudo consolidado o Estado despótico, capaz de impor a sua ordem nas terras distantes do Cáucaso e da Sibéria, e só com Pedro o Grande, já em finais do século XVII, é que se viram para o Báltico e a Europa. Quanto à Inglaterra, viveu sempre uma sua própria catarse histórica, naturalmente articulada com a continental mas de forma específica: lançando-se na aventura marítima na peugada de Holandeses, Espanhóis e Portugueses; resolvendo pela força as disputas dinásticas com a Escócia e a breve aventura “republicana” de Cromwell e dos levellers (igualitaristas); e, finalmente, pelo domínio do parlamento de Dublin (1618), a migração de britânicos e também pelo recurso às armas, passando a dominar a católica Irlanda, impondo aí as leis de Londres e os interesses da minoria latifundista protestante-anglicana. 
       
Mas vejamos um pouco mais atentamente o essencial daquelas guerras de religião (que têm alguma homologia com as que actualmente encarniçam sunitas, xiitas e outras espécies na esfera do Islão, quanto mais não seja pela violência extrema a que recorrem).
Os reinos da península Ibérica constituíram-se em defensores incondicionais da Contra-Reforma e do Papado, tal como, naturalmente, as oligarquias, príncipes e duques italianos que mais haviam estimulado o Renascimento. Na Europa central, a Áustria, a Boémia, a Baviera, os Húngaros – sustentáculos do que restava do Sacro-Império – ficaram com a ortodoxia romana, mas boa parte dos príncipes alemães apoiaram Lutero e o luteranismo contra os católicos. A doutrina de Lutero também vingou a norte, com a Suécia, que dominava a Dinamarca e a faixa alemã do mar Báltico. Em contrapartida, os Polacos tombaram para o partido católico. Os Países-Baixos, depois de sacudida a dominação da casa de Áustria (os Habsburgos), adoptaram uma especiosa forma republicana (onde o comércio marítimo estava nas mãos dos grandes burgueses da Companhia das Índias), porém tutelada pelos monarcas da dinastia de Orange-Nassau que favoreceram o protestantismo. Parte substancial da Suíça aderiu ao calvinismo. E em França dividiram-se as “opiniões”, constituindo-se uma forte minoria protestante (os huguenotes) ao mesmo tempo que o Estado se mantinha do lado do Papa. Em 1572, uma armadilha real provocou a matança (estima-se 20 a 30 mil) dita de S. Bartolomeu, a qual reacendeu os ódios religiosos, as perseguições e os exílios, que só se apaziguaram com o Édito de Nantes (1598) proclamado por um rei já da dinastia dos Bourbons, que tolerava a dissidência e selava alguma paz religiosa. Porém, já no final de Seiscentos, o referido Édito foi revogado, o que levou a nova exacerbação do conflito, com especial incidência em algumas regiões do centro do país, como o Limousin e Poitou-Charente, e do sul (onde já no século XIII lavrara a dissidência milenarista dos Albigenses). 
As perseguições religiosas também aceleraram a emigração de muitos alemães, ingleses, franceses e gente de outras origens para a América do norte (enquanto holandeses se enraizavam no sul de África).
Em todo o caso, os países de cultura germânica foram os que mais tipicamente protagonizaram as guerras religiosas do cristianismo: primeiro nas décadas de 20, 30 e 40 do século XVI, com a liquidação física dos radicais de Tomás Münzer e dos anabaptistas, as divisões dos príncipes alemães entre si, e a concretização de uma paz religiosa em Augsburgo (1555), que também viu a retirada do “católico romano” Carlos V para um convento; depois, no século XVII, com a Guerra dos 30 anos.         
Em 1618, com pretexto na “defenestração de Praga”, iniciou-se esta guerra travada sobretudo em solo germânico mas também em zonas mais distantes, com diferentes protagonistas envolvidos e alguns volte-faces surpreendentes. Maiormente, distinguiam-se aqui: uma “liga católica” de estados alemães liderados pela Baviera; uma “união protestante” com outros príncipes teutões sob o comando do rei da Dinamarca; as forças militares dos Habsburgos da Áustria e da Boémia; aliados destes, exércitos espanhóis (e portugueses) intervieram também no conflito, sobretudo a partir da entrada em cena da França. Com efeito, cerca de 1630, a vitória parecia sorrir aos católicos, quando Gustavo Adolfo da Suécia decidiu entrar na contenda ao lado dos seus correligionários protestantes; e, em seguida, a França, oficialmente católica, malgré celà agiu já segundo os seus interesses de “Estado territorial” (com posições geoestratégicas e apetites económicos, e temerosa sobretudo de uma “unidade alemã”) ao secundar o esforço de guerra dos suecos e vir a ser, com eles, a potência vencedora.
A “paz de Vestfália” só simbolicamente hoje designa o fim desta guerra, já que se tratou de um conjunto de vários tratados (de Münster e Osnabrück, que incorporaram os anteriores de Praga e de Augsburgo) e a paz entre a França e a Espanha só foi assinada em 1659 (pelo tratado dos Pirenéus). Estes documentos político-diplomáticos reconheceram os estados europeus assim definidos (os grandes e os pequenos) assegurando tanto os de dominância católica como os de religião oficial protestante, reajustaram as fronteiras entre a França e os principados alemães, garantiram a completa independência dos Países Baixos e da Suíça, preservaram a identidade da Polónia e aumentaram o domínio da Suécia com territórios alemães da bordadura báltica, mas não por muito tempo. Portugal aproveitou a circunstância de uma Espanha derrotada para consolidar a sua independência (restaurada em 1640), ao apoiar diplomaticamente as posições dos vencedores franceses e suecos e ao beneficiar da prioridade militar que Madrid concedeu à subjugação da Catalunha.

Talvez que os analistas de hoje exorbitem um tanto na sua interpretação de que o “tratado de Vestfália” fundou o sistema de relações internacionais com base na soberania dos estados, pois continuaram presentes diversas características do poder pessoal dos soberanos que, em muitos casos, estavam ainda longe de ter conseguido unificar as regras regalianas vigentes nos seus países. Mas é certo que, doravante, não houve lugar para mais guerras explicitamente religiosas no seio da cristandade e as relações entre as casas reinantes passaram, cada vez mais, a ser definidas enquanto representação externa e expressão dos interesses dos Estados-nação, vistos doravante como a única autoridade reconhecida dentro das suas fronteiras e únicos actores do moderno sistema de relações internacionais, de jure (mas não, frequentemente, de facto). Ficaram assim criadas novas condições políticas (a juntar às filosóficas, económicas e sociais) para o advento da Modernidade.    

JF / 30.Jun.2017

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