sábado, 5 de agosto de 2017

Uma camponesa, entre a tradição e a modernidade

Conheço uma senhora aldeã que é um desses casos ilustrativos ainda existentes no nosso país (e em muitos outros) em que se combinam na mesma pessoa as velhas tradições camponesas e algumas das nossas modernidades. É um caso singular, mas também típico da adaptação que os indivíduos são capazes de fazer perante as mudanças das condições de vida que, inexoravelmente, os ultrapassam.
Esta camponesa passou há pouco os sessenta anos, nunca conheceu homem, é atarracada, forte e muito morena, tanto por herança genética como por força de uma vida passada essencialmente ao ar livre, sujeita às intempéries. Os irmãos casaram, abandonaram o casal e foram para as bandas das respectivas, têm filhos e empregaram-se em modestos ofícios industriais. Esta, por ser mulher (ainda por cima pouco bafejada pela sorte da beleza), ficou sempre na casa dos pais, como indispensável mão-de-obra complementar e, a partir de certa altura, como a verdadeira “segurança social” dos velhotes, cujas terras agrícolas ou florestais são dispersas e alcançam poucos hectares.    
Da agricultura e pecuária tradicionais, sabe de tudo: cavar, adubar, plantar, mondar, empar, desbastar, podar, colher e mais o resto. Só acha que não sabe enxertar e não limpa oliveiras e outras árvores grandes porque delas caiu uma vez e considerou que era mais tarefa para homens, ou talvez para não lhe espreitarem as pernas. Não domina qualquer maquinaria agrícola (salvo o accionar do motor electro-bomba que lhe aspira a água de um poço para um tanque de rega superior), mas a pá, a forquilha, a enxada, a foice e o foição, o malho, o serrote, a enchó, a sachola, a tesoura de poda, as peneiras, o forno de lenha e todo o resto da ferramentaria antiga do trabalho da terra não têm para ela qualquer segredo ou dificuldade. Maneja-os com (quase) a mesma potência de um masculino e decerto com mais acerto do que a maioria deles. Já não guia carroças (que apodrecem nas lojas) mas transporta em carros-de-mão qualquer carga de abudos, excrementos, palhas, grãos ou frutos.
A sua inexperiência de afectos carnais foi transferida, há muito, para a lida com os animais de trabalho e criação: os burros e muares já desapareceram, substituídos por máquinas manobradas por vizinhos e pagos à hora. Mas os currais de ovelhas e cabras, os porcos e coelhos, os gatos e cães das redondezas, têm nela uma guardadora reponsável, conhecedora e amorosa. Acaricía os animais, trata-os pelos nomes, faz-lhes a cama e serve-lhes o pasto ou a ração, apalpa-lhes as partes para diagnosticar alguma anomalia, faz o papel de parteira (às vezes, bem difícil), afoga prontamente os excedentes de uma ninhada e só em último caso corre a chamar o veterinário.
É que esta nossa camponesa é uma mulher inteligente que, com outra origem e educação, poderia ter chegado longe. Mais e melhor do que muitos “doutores”. Raciocina com lógica e facilidade. Sustenta longas conversas com propriedade e a-propósito. Exprime-se bastante bem. E tem convicções fortes que se não vergam à argumentação do primeiro letrado que apareça. Até porque, sempre que as canseiras rústicas lho permitem, ela lê tudo o que lhe cai à mão: folhas paroquiais, jornais locais ou mesmo a “imprensa de referência” que lhe seja deixada por algum conhecido da cidade; ouve e fica a matutar sobre os noticiários da rádio e da televisão; segue mesmo alguns dos debates televisivos menos rebarbativos e não raro formula as suas próprias opiniões acerca deles.
Mas volta a ser a camponesa tradicional no que toca ao apego à família próxima, à propriedade fundiária, às celebrações religiosas. Esses, são valores sagrados dos quais nenhuma argumentação a demoverá – salvo em caso de conflito interno entre eles: desavenças em processos de partilhas; algum “acto vergonhoso” oriundo de sacerdote ou de familiar; o tesoureiro da “comissão fabriqueira” que fugisse com o cofre; ou qualquer outro gesto de natureza semelhante. Também são por ela herdadas e assumidas as reputações rasteiras e as malvadezes que por vezes dividem irremediavelmente alguns dos grupos (incluindo do mesmo sangue) que coabitam na aldeia. As histórias-à-lareira ouvidas desde pequenina das bocas dos anciãos familiares são o seu verdadeiro Livro, onde se construiram os valores de referência que orientaram todo o desenrolar da sua vida, nas suas cíclicas repetições, acontecimentos inesperados e definitivos desenlaces. Até que Deus “seja servido” chamá-la à sua presença.

JF / 5.Ago.2017  

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